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  • Qual o impacto do Luto na saúde?

    Diversas pesquisas e estudos mostram que perder um ente muito querido pode gerar danos terríveis no corpo humano. A perda de um filho é uma dor inimaginável para a maioria do pais, mas essa dor faz parte do dia a dia da paulistana Ana Cristina de Freitas Rocha.

    No ano de 2015, ela perdeu sua única filha, Tatiana, que foi vítima de um erro médico que se reverteu em uma infecção generalizada. Ela relata que ainda é um grande desafio diário lidar com o falecimento da sua filha, mesmo após 14 anos. Passar pelo dia do aniversário da filha, que atualmente teria 35 anos, e não ter mais ela por perto, é muito difícil para a mãe.

    “Você perde o chão, você perde sua essência. Você não sabe mais quem você é. São tantas reconstruções que, sem ajuda, não há possibilidade de lidar com a situação”, descreve Ana Cristina, que é moderadora da associação Casulo, que foi fundada em 2001 e organiza reuniões de apoio para pais que perderam seus filhos.

    A paulistana também conta que o luto tem um impacto imediato no corpo, trazendo muitas manifestações físicas, tais como: insônia, falta de apetite, problemas digestivos, baixa resistência, infecções frequentes e até mesmo taquicardias. Ana Cristina desenvolveu até uma doença inflamatória de pele que é autoimune, chamada de psoríase, onde o sistema do corpo começa a atacar as células dermatológicas por algum motivo, causando lesões e descamações.

    “No início, você não quer comer. Há um rápido emagrecimento na maioria dos casos”, diz Ana Cristina. “Não é que você não tenha apetite. Você se esquece de comer. Você não tem apetite e não dorme direito. Ou porque tem insônia ou porque não quer dormir mesmo. Eu, muitas vezes, não queria dormir. Eu já estava vivendo minha realidade. Quando eu acordava, era a constatação física, completa, de que ela não estava mais aqui”, revela.

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    Há 9 anos, a fisioterapeuta Janice Ortiz perdeu seu filho Ricardo, que tinha 28 anos. “É um tsunami na vida da gente. Como se morrêssemos com nosso filho. De repente a gente tem que renascer das cinzas e mal se conhece. Em princípio, é aquele choque e a gente não percebe o que está acontecendo em nosso organismo”, destaca.

    Menos depois de um ano, Janice teve uma fratura espontânea na perna, provocada pela perda de cálcio, que seu corpo passou a ter dificuldade para metabolizar, devido ao efeito do estresse causado pelo luto. “Entrei em um estresse emocional muito grande, o que alterou todo o meu metabolismo e depois da fratura fomos entender o que estava acontecendo. Eu estava trabalhando e comecei a sentir a perna. Depois de uns dias acabei fazendo uma tomografia, porque não melhorava, e constatou-se uma fratura total”.

    Após o incidente, a fisioterapeuta descobriu que estava com uma alteração na paratireoide, glândula que precisou ser retirada logo em seguida. Seu organismo, que estava desregulado devido à grande quantidade de estresse, entendia que tinha excesso de cálcio e eliminava a substância. Inicialmente, Janice perdeu o apetite, mas depois passou a comer compulsivamente e adquiriu diversas doenças crônicas no estômago e na tireoide, sem contar a depressão, que veio em seguida. “Nunca fui uma pessoa depressiva e hoje não consigo viver sem antidepressivos”, diz.

    Estudos sobre o luto 

    Segundo a psicóloga belga e professora da Universidade de Louvain Emmanuelle Zech, a ciência já provou que o luto afeta a saúde. Ela também é autora do livro A Psicologia do Luto, onde mostra comprovações do aumento de depressão com desenvolvimento de estresses pós-traumáticos e ansiedade com perspectivas até mesmo de mortalidade. “São comuns os casos de mortes de viúvos recentes, por exemplo”. Como diz a psicóloga belga, todos os sintomas citados por Ana Cristina, podem ocorrer após um período de luto.

    “Há também uma vasta literatura sobe os sintomas provocados pelo luto, como tristeza profunda, sentimento de culpa, arrependimento ou somatização. Há muitas evidências de que a perda de uma pessoa próxima, que tem um grande significado em nossa vida, terá um impacto importante na saúde”, explica a psicóloga. No entanto, isso não é uma regra, pois cada um vive a perda de maneira muito particular e isso pode depender da forma que a morte ocorreu, se foi súbita ou não, de maneira natural ou trágica.

    Outros estudos também apontaram que o luto aumenta as chances de ter um infarto. Isso é causado por conta de uma combinação muito perigosa: elevação do ritmo cardíaco, tensão arterial e excesso de coagulação. Outro problema, que é raro, mas que também pode ocorrer, é a síndrome do coração partido, que em inglês é chamada de “breaking heart”, que provoca o enfraquecimento súbito do ventrículo esquerdo.

    “Na literatura médica, os homens viúvos são amplamente mais descritos, pois estão mais expostos à síndrome”, diz a psicóloga belga. “Eles têm um risco maior de acidente cardíaco, de ter o coração partido não somente do ponto de vista emocional, mas também físico. Há mortes que ocorrem depois da perda de um cônjuge, causadas por crises cardíacas”, diz Emmanuelle.

    O aumento do nível do hormônio do estresse, o cortisol, também afeta as funções digestivas e o sono. Além do mais, como descreve Ana Cristina e confirma a psicóloga belga, o sistema imunológico sofre um grande baque, como mostra um estudo publicado na revista científica Brain, Behavior and Immunity.

    A pesquisa apontou que a vacina da gripe fazia menos efeito em pessoas idosas que haviam perdido um ente querido. Outro grande problema é a diminuição da cognição, provocada pelo estresse crônico, que diminui a massa cinzenta em certas áreas cerebrais.

    Direito a tristeza

    As pessoas lidam com o luto cada um da sua maneira para tentar seguir com a vida adiante. Segundo a psicóloga Emmanuelle Zech, em termos médicos, a tendência é propor, logo após a perda, antidepressivos, ansiolíticos ou soníferos, o que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos.

    “Não é sempre uma boa opção, é a opção médica. Mas quer dizer também que sofrer quando perdemos alguém é anormal. Vivemos em uma sociedade que transmite muitos valores de bem-estar, felicidade, realização pessoal etc. Estamos dentro de um movimento em que tudo que se distancia do bem-estar e da felicidade se torna algo anormal”, explica Emmanuelle.

    Vale ressaltar que esse é um comportamento que estimulado e reproduzido nas redes sociais. “As relações próximas são fundamentais para a sobrevivência. Então é logico que quando perdemos alguém exista um impacto físico, psicológico e social”, argumenta.

    Janice Ortiz concorda com a psicóloga Emmanuelle Zech, pois, segundo ela, essa “felicidade permanente” de fachada, exibida pelas pessoas nas redes sociais, não deixa espaço para que as pessoas assim como ela, vivenciem sua perda. “Como você vai viver um luto no meio disso? Exigem da gente que a gente supere. Essa palavra é horrível. É uma dor que não se supera. A gente aprende a conviver com ela”, finaliza.

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