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  • O luto é um processo não linear?

    Nos últimos tempos, muitas pessoas têm vivenciado situações de luto, seja individual ou coletivamente, justamnete por conta da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19). Por esse motivo, o Canal Uol através do VivaBem, realizou a 2ª Semana de Saúde Mental, um evento online e gratuito, que se dedicou à reflexão sobre esse sentimento.

    Por intermédio da jornalista Cynthia de Almeida, fundadora do site “Vamos falar sobre luto?”, o bate-papo contou com a participação da psicóloga Maria Helena Franco, que é coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), e também do cantor e compositor Projota.

    Segundo Mariana Ferrão, jornalista e idealizadora da Soul.me, vivenciar e elaborar o luto é necessário — um processo, porém, que foi impossibilitado para grande parte das pessoas por conta das exigências que a Covid-19 impôs. Mariana foi a apresentadora do evento que aconteceu no mês de outubro.

    A maior crise sanitário do século trouxe novos significados aos conceitos de falecimento e despedida. Também foram abordadas as questões sobre a dificuldade que temos para interagir com pessoas enlutadas e o desconhecimento sobre as fases do processo de superação.

    A presença, no lugar das palavras

    Após perder sua mãe aos 8 anos de idades, Projota foi criado por sua avó, dona Lourdes, que faleceu recentemente. “O que fez diferença em cada uma dessas situações foi a presença e o acolhimento. No passado, com a minha avó nos apoiando. E agora, com a minha esposa e meu irmão, pessoas com quem sempre posso conversar sobre o assunto”, disse o cantor.

    Maria Helena Franco apontou que a primeira atitude para acolher alguém que está em processo de luto deve ser justamente oferecer a presença. “Não há chance de ensaio numa situação dessas para pensarmos em qual a palavra mais adequada a se dizer”, explica a psicóloga. “E a pessoa não precisa que lhe digam para fazer isso ou aquilo. O que ela precisa sentir é que há alguém com ela, genuinamente. Pois neste momento não são palavras que abrem um canal de comunicação, mas a disposição em ouvir e estar próximo”, complementa.

    Um processo não linear

    Outro aspecto destacado pela psicóloga é o fato de o caminho de superação não ser linear. “Haverá momentos, datas marcantes, que podem abater aqueles que parecem estar vivendo uma fase melhor em relação a uma perda. E é preciso validar que, em alguns dias, a pessoa estará bem e, em outros dias, irá preferir ficar quieta em seu canto”, explicou.

    Comparando os dois processos vividos por ele, Projota explicou que em sua infância os efeitos da perda da mãe não foram constantes e imediatos. “Como era pequeno, às vezes estava até feliz. Mas lembrava dela, de repente, no meio do jogo de videogame”, disse ele.

    Ao despedir-se da avó, alguns meses atrás, Projota encontrou forças na convivência com a filha pequena. Em momentos cotidianos que costumava dividir com dona Lourdes, sentia a tristeza bater. Ele compartilhava vídeos da filha para sua avó para que assim ela pudesse acompanhar o desenvolvimento da criança e matar a saudade, já que a pandemia impedia uma convivência mais próxima entre eles.

    Despedida une quem ficou

    Embora a despedida venha acompanhada de muito sofrimento, em muitas situações, acaba proporcionando a união de quem ficou, como no caso da família de Projota. Quando a avó entrou em estado vegetativo após ter um AVC (acidente vascular cerebral), situação em que ela permaneceu por pouco mais de um ano, o vínculo com seu irmão ficou mais forte e assim permanece até hoje.

    “Entendo que, atualmente, nesta circunstância em que tenho uma compreensão maior de que a despedida faz parte da vida, sobretudo pelo fato de minha avó estar com 88 anos quando faleceu, a família unida ajuda a seguir em frente”, relatou.

    O desabafo do cantor traz um outro ponto pouco falado, como lembrou Cynthia de Almeida, que é conhecido como “luto antecipatório”, que acontece quando a pessoa já apresenta um quadro irreversível que certamente levará ao falecimento e os entes já começam a lidar com essa perda de maneira mais real.

    O termo teve origem em 1944, onde se começaram a observar as reações das esposas dos soldados que iam para a guerra, eles tinham reações de enlutamento pela separação física de seus maridos e perante a possibilidade de que eles não retornassem da batalha. A partir disso, o fenômeno passou a ser estudado, principalmente nas situações onde as pessoas enfrentavam doenças terminais.

    Para William Worden, psicólogo e autor de diversos livros sobre processos de luto, “o luto é um processo universal, é inevitável que em algum momento da vida as pessoas passem por esse processo”. O psicólogo ainda aponta algumas funções básicas que são encontradas tanto no processo de luto normal quanto no antecipatório, como aceitar a realidade da perda, ou seja, a consciência e a aceitação de que a pessoa morrerá, faz com que a preparação da perda se inicie mais cedo.

    Neste processo também é normal que a consciência da inevitabilidade da morte alterne com a negação de que esse fato realmente ocorrerá. Ainda em outras situações, há evidências explícitas da morte e, mesmo assim, a pessoa continua a nutrir esperanças, reforçando cada vez mais o processo de negação.

    “O luto antecipatório não olha só para a morte quando ela vem. É um processo que vai acontecendo a partir da constatação de quem a concretude da despedida é uma questão de tempo”, define Maria Helena. A psicóloga também destaca que pode ser determinada como antecipatória, a compreensão, por exemplo, de que pessoas mais idosas estão mais propensas a partir em breve. Contudo, mesmo nessas situações em que se tem que lidar com uma morte muito dolorosa, acaba se tornando um processo “mais natural”, sendo assim, ter o apoio de pessoas próximas e queridas fará toda a diferença no processo de luto.

    Um outro processo é o de preparação para a dor da perda, quando existe uma gama de sentimentos ligados à perda e que geralmente são ligados também ao luto pós-morte. Um deles é a ansiedade, que aumenta e acelera quanto maior for o período de luto antecipatório e quanto maior for a proximidade da morte, sendo ligada também ao aumento da consciência da morte, quando, por exemplo, é presenciada a deterioração do paciente quando ele passa por uma doença progressiva.

    O próximo processo trata de ajustar-se a um ambiente onde está faltando a pessoa que faleceu, que nos casos de antecipação é comum que os enlutados ensaiem o desempenho de papéis na sua mente, os quais deverão efetuar após a morte do paciente.

    Por fim, o último processo é o de reposicionar-se em termos emocionais à pessoa que faleceu ou que está em iminência de falecer e dar continuidade a vida, destaca um artigo publicado em 2002 por Fonseca & Fonseca.

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