• Central de atendimento 24h (011) 4780-5608
  • O Luto da dúvida: como lidar um familiar desaparecido?

    Mesmo com o passar do tempo, a auxiliar de serviços gerais, Lenivanda Souza Andrade, de 43 anos, tem dificuldades de falar sobre o desaparecimento de sua filha Gisela Andrade de Jesus, que ocorreu em 2010. É fácil perceber o nó na garganta da mãe ao falar sobre o assunto. Isso porque o luto da dúvida é doloroso demais.

    A menina sumiu quando tinha apenas oito anos de idade e a mãe estava grávida. Ela fala sobre o desespero de passar por isso, pois, segundo o seu relato, ela somente conseguiu se manter viva com a ajuda de Deus. Como também, devido ao nascimento de seu outro filho que lhe deu forças para seguir em frente e continuar a viver.

    Como lidar com a saudade e o luto da dúvida?

    Lenivanda lida com a sua saudade todos os dias, mesmo tendo dois filhos atualmente. Isso porque a esperança de que sua filha desaparecida apareça está em sua mente todos os dias. De acordo com ela, enquanto não há corpo, ainda há vida. Ela acredita que sua filha ainda está viva em algum lugar. 

    Assim como Lenivanda, milhares de pessoas passam por esse tipo de situação angustiante que é o luto da dúvida. Muitas crianças somem todos os dias no Brasil e no mundo.

    Sendo assim, esse tipo de situação causa muita dor e angústia pela ausência da pessoa, pois sem a certeza da morte, o luto não pode ser vivido e sempre fica a dúvida. Essa sensação mistura saudade e angústia.

    De acordo com o psicólogo Gilberto Fernandes, da ONG Mães do Brasil, instituição que atua no combate ao desaparecimento de crianças e jovens, a sensação é como um buraco sem fundo.  

    O especialista diz ainda que é comum a pessoa que por esse tipo de situação passar a viver em função do desaparecimento, procurando em vários lugares sem dormir, sem vontade de trabalhar, sem vontade de comer e até de viver.

    Outro sentimento comum nesse tipo de situação é o sentimento de culpa. A pessoa se sente culpada por deixado o filho em algum lugar e ele não ter voltado.

    A importância de se libertar do sentimento de culpa

    De acordo com o empreendedor social, Nicolas Raline, de 30 anos, que perdeu sua irmã, é impossível não pensar nos detalhes e ficar se culpando, buscando situações do tipo: “se eu tivesse junto seria diferente, ou, “se eu tivesse esperado um pouco mais ela estaria comigo”.

    Esse tipo de questionamento sempre está presente com quem vive o luto da dúvida. Contudo, especialistas afirmam que as pessoas que passam por isso e ficam se culpando podem piorar ainda mais a situação. Sendo assim, nesses casos, sempre é bom procurar ajudar especializada.

    Nicolas, quando tinha apenas 12 anos de idade, e sua irmã mais nova Amanda, de apenas 9 anos, foram até o mercado e, infelizmente, ela nunca mais voltou. Nicolas tem ainda dois irmãos gêmeos que são 10 anos mais novos, que naquela época tinham apenas dois anos de idade. 

    Mesmo com toda a tristeza, não foi possível viver o luto, pois sua mãe ficou tão abalada que não conseguia mais lidar com as situações comuns do cotidiano. O pai, por sua vez, não pode fazer muita coisa porque teve que continuar trabalhando para pagar as contas da casa.

    Portanto, Nicolas teve que fazer o papel de “mãe” naquele momento, se responsabilizando pelos irmãos menores e pelos cuidados da casa. Anos depois, mais velho, acabou se tornando ativamente participante na ONG Mães do Brasil.

    Hoje ele é coordenador do projeto Gente do Amanhã, que ajuda a adolescentes carentes se colocarem no mercado de trabalho. 

    A vida continua

    Lidar com a sensação de ausência e com o luto da dúvida das pessoas é uma das missões do psicólogo Dr. Fernandes. Ele diz que: “O meu trabalho não traz quem se foi, mas procura reintegrar ao mundo quem ficou. Ou seja, a pessoa terá que aprender a conviver com aquele buraco enquanto ele existir”. 

    Ele afirma que aquele “buraco” é algo que fica aberto enquanto não existe uma resposta definitiva sobre o assunto. O buraco se facha quando é encontrado o corpo, daí vem o luto real. 

    Fernandes também fala da importância de recolocar a pessoa de volta a sua rotina social, pois isso é de grande importância. Ele fala que não tenta tirar a esperança de ninguém, pois cada pessoa tem o direito de mantê-la viva o quanto achar necessário. “Nós tentamos fazer com que essas pessoas que perderam alguém continuem acreditando na vida”, acrescenta

    Uma forma de ver as coisas de forma mais positiva, segundo Fernandes, é enxergar o desaparecimento de uma pessoa como uma história de muitas outras da sua vida. Sendo assim, você não pode abandonar todas as outras histórias da sua vida por causa de uma delas, pois você provavelmente dever ter família, amigos etc.

    Ainda segundo o psicólogo, no desaparecimento de alguém existes ainda um agravante que é conflite. Pois, se a questão está em aberto e a pessoa talvez esteja vive, as pessoas sempre ficam se perguntando como ela está.

    Todas as pessoas que passam pelo luto da dúvida se perguntam, ou, será que a pessoa está se alimentando direito, será que está com frio? Mas nunca imaginam que elas possam estar felizes, casadas, com filhos e bem-sucedidas na vida.

    O amor materno

    Com o objetivo de investigar o impacto do desaparecimento de um filho através do ponto de vista da mãe e qual impacto que isso trazia para ela e sua família, a psicóloga Sandra Rodrigues de Oliveira, defendeu em sua tese de mestrado da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), o seguinte tema “Onde Está Você Agora Além de Aqui, Dentro de Mim? O Luto de Mães de Crianças Desaparecidas”.

    Esse incrível trabalho foi realizado com base em uma pesquisa de campo de caráter qualitativo, com colaboração da FIA (Fundação para Infância e Adolescência), mais especificamente do programa SOS Crianças Desaparecidas. Foram investigadas 11 mulheres.

    Diferente do ponto de vista de Fernandes, Oliveira fala que o luto se instala independente da constatação da morte. Ela afirma que vivenciar o desaparecimento de uma pessoa já é um por si só um luto. Ela diz que, em primeiro lugar, o luto não é apenas para casos de morte e, em segundo, a ausência da pessoa gera uma sensação de perda na família e nos amigos.

    Quando a vivência é interrompida ficam muitas dúvidas e pensamentos em relação a pessoa que desapareceu. Tais como: onde e por que essa pessoa desapareceu? A falta da pessoa a evidencia muito mais no seio familiar. 

    De acordo com Oliveira, o desaparecimento de uma pessoa pode ser considerado um fenômeno muito mais complexo do que a morte. Pois envolve uma série de sentimentos conflitantes (raiva, culpa, medo, impotência, dentre outros). Sem falar na esperança de reencontrar a pessoa que sumiu. 

    Portanto, esse tipo de luto é marcado por uma série oscilações sentimentais que não tem interrupções enquanto a situação for incerta. 

    O Tratamento para o luto

    Oliveira explica que assim como qualquer outro luto, o luto da dúvida não possui uma fórmula exata para os enlutados. Isso porque cada pessoa possui a sua própria forma de entender a situação e vivenciá-la. A história individual de cada um fará grande diferença na forma de lidar com a perda. 

    No momento de luto o mais importante é reconhecer que a perda por desaparecimento é um luto. Após isso, é descobrir uma forma de lidar com todos esses sentimentos.

    É importante também contar com o apoio familiar e de amigos, e, dependendo do caso, com apoio psicológico ou de grupos especializados no assunto.

    Deixe um comentário