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  • O enluto não quer sugestão do que fazer, mas presença

    Na opinião da psicóloga Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), é muito importante ajudar pessoas que passam pelo luto sem fazer nenhum tipo de julgamento ou ficar dando sugestões.

    “A primeira atitude é estar junto, oposto a dizer ‘faça isso ou faça aquilo’. Mostrar para aquela pessoa que está ali com ela e, estando ali com ela, pode-se ouvir sem fazer julgamento e sem dar sugestão. Essa pessoa não quer sugestões, ela precisa de alguém que esteja ali de verdade, que de fato seja uma presença ali”, destacou durante uma entrevista.

    De acordo com Maria Helena, é muito comum as pessoas terem oscilações de felicidade e tristeza durante o processo de luto. “Oscilar um dia que está bem e outro que não está é necessário para se perceber vivendo situações difíceis. O luto é um processo natural quando a gente vive uma perda, e o natural dele é que exista dor. Fingir que não, não é o natural”, explica.

    Para o psicólogo Fernando Fernandes, que prestou apoio as pessoas enlutadas em Belo Horizonte – MG na tragédia de Brumadinho, ao se deparar com tal situação, deve-se aplicar essas cinco dicas:

    1. Escute mais e fale menos. Dê espaço para que o enlutado possa desabafar e descrever o que está sentindo;
    2. Observe questões práticos do dia a dia, como por exemplo, se o enlutado está se alimentando, se tem dormindo bem, saído. Caso contrário, aconselhe a pessoa a procurar ajuda de um psicólogo, psiquiatra ou terapeuta. Não ter ânimo é esperado, porém, se essa falta de ânimo começar a fazer parte da rotina por muito tempo, isso se torna preocupante;
    3. Tente entender o sofrimento. O visitante pode elaborar perguntas como: “Como você está se sentindo?” ou “Como está sendo pra você lidar com essa perda?”. O esperando é que o enlutado continue dando seguimento em sua vida. Algumas pessoas vão se apegar à fé, outras ao trabalho e algumas até mesmo a sua própria depressão. Se for a depressão, aconselhe a pessoa a buscar ajuda profissional;
    4. Ajude a pessoa a encontrar algo que ainda faça sentindo na vida para ela, por exemplo, artes manuais, esportes ou qualquer outra coisa que a faça se sentir viva. Tente estimular essa pessoa, mesmo que ela não tenha vontade, sem dúvidas isso ajudará a superar o processo de luto;
    5. Motive a uma mudança de rotina. Por exemplo, se a mãe tinha o hábito de esperar o filho para o café as 14h, aconselhe que ela faça alguma atividade diferente nesse horário. Quando se muda uma rotina, surgem as possibilidades de se vivenciar novas experiências que poderão auxiliar no processor de ressignificação da dor e do sofrimento.

    Prazo do luto

    Fernando explica que o período de luto pode ser subjetivo, sendo assim, cada pessoa leva um prazo diferente para vivenciá-lo.

    Existem casos de pacientes que fecham o ciclo do luto em 9 meses e outros que levam até 2 anos. Então, o luto pode demorar certo tempo a passar sim, mas não pode ser tão profundo e doloroso de uma forma grandiosa para sempre.

    Portanto, é necessário observar se o sentimento não desencadeará uma depressão, gerando assim uma ruptura na continuidade da vida.

    Manifestação do luto

    Perante a um falecimento, muitas pessoas choram, passam mal, outras preferem permanecer caladas, mas e qual delas sente mais dor? Nenhuma, responde Fernando. “Não tem como mensurar o sofrimento de um ou de outro. A dor da perda vem na mesma proporção do amor vivido naquela relação. O que eu tenho a dizer para quem faz uma visita a um enlutado, é: respeite todas as formas de manifestação de dor”.

    Em datas celebrativas, como no dia de finados, data de aniversário do falecido ou alguma outra data importante, é comum que o enlutado fique mais sensível. Para o psicólogo, é necessário deixar que a pessoa viva o luto. “É importante tirar um tempo para se permitir sentir a perda. A melhor forma de superar o luto, é viver o luto. Se você não vive o luto, você vive de luto”.

    Na opinião da psicóloga Clarissa De Franco, o luto é um processo solitário, assim como vivenciar qualquer outra dor. “Na verdade, podemos e devemos partilhar sentimentos e pensamentos, mas existe algo muito particular no modo como cada um vive esse momento. Essas circunstâncias de isolamento podem ser realmente necessárias, já que são possibilidades de a pessoa entrar em contato com os seus sentimentos. Entretanto, esses momentos devem ser alternados com horas de partilha, até para que a pessoa em luto não perca a referência sobre quem ela é. O luto pode ser tão violento que podem existir momentos de despersonalização, beirando à loucura. E a família e os amigos, por exemplo, trazem referências, ligando a pessoa ao seu mundo e à sua identidade. É importante reconhecer-se no outro, mesmo que só por um instante”.

    Para trazer mais conforto a quem sofreu uma grande perda, estar perto já é algo muito importante, respeitando também os momentos em que a pessoa quer estar sozinha. Além do mais, pequenos gestos de carinho e alguns convites que lembrem o enlutado de que ele tem possibilidade de vida ao seu dispor.

    Rituais do luto durante a pandemia

    Segundo a psicóloga, a paralisação dos rituais de luto por conta da pandemia, trouxeram muitos prejuízos para as pessoas.

    “Os rituais fazem falta porque eles têm essa importância de organizar a experiência daquela família, porque a morte desorganiza a vida dessas pessoas. O ritual diz o que é para fazer. Na falta dele, fica mais difícil para as famílias se organizarem com aquela situação que é totalmente desorganizadora. Falta também a situação de oferecer homenagens para a pessoa que faleceu. Priva as pessoas do estar junto, dentre outras coisas. Justamente por isso, que os rituais de despedida e os velórios são importantes, mas como a pandemia afetou esse momento de partilha e conforto entre as pessoas sobre a perda de um ente querido, as pessoas atualmente podem estar vivenciando o luto de forma errada ou simplesmente nem mesmo conseguiram vivenciá-lo verdadeiramente”, finaliza.

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