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  • Dor igual: viver o luto dos pets

    Dinalva Santos, que é técnica de laboratório, perdeu sua amada cachorrinha em novembro do ano passado, devido a um câncer que já estava em estado bem avançado, e até agora ainda não consegue olhar suas fotos com a Mel.

    “Ela faleceu com 20 anos, em decorrência de um câncer. Estava em casa e parou de comer. Após o segundo dia sem se alimentar, levei para veterinário, que me aconselhou a acabar com o sofrimento dela, pois não tinha mais como reverter o quadro”, ela relembra do acontecido, muito emocionada.

    Logo após tragédia, Dinalva desenvolveu a depressão, já que a tristeza e a angustia eram sentimentos constantes presentes em sua vida. Depois de buscar ajuda psiquiátrica, ela fez tratamento com medicamentos e terapia para poder se recuperar.

    Para grande parte das pessoas, pode parecer estranho que alguém sofra tanto com a morte de um animalzinho de estimação, mas segundo especialistas, o processo do luto e a dor da perda de um pet podem ser exatamente iguais – ou muitas vezes até pior – ao luto de quando um ente querido nos deixa.

    Definição do luto

    Na literatura médica, o luto está sempre relacionado à morte de um humano, no entanto, ele não ocorre somente em casos de morte, sendo associado também em casos de perdas. De acordo com a definição da psiquiatra e psicanalista Regina Elisabeth Lordello Coimbra, “O luto é principalmente a perda de uma perspectiva da vida, que pode ser uma ideia, um sonho ou até uma fantasia imaginária.”

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    Segundo a psicanalista Rochelle Aweida Veras, no momento da perda de um animal de estimação, as pessoas próximas precisam tomar cuidado para acabar sendo indelicadas demais e respeitar o que o dono do bichinho está sentindo. “É preciso respeitar a dor, não julgar a pessoa e, principalmente, não minimizar o sofrimento com frases do tipo: ‘Era só um cachorro, não tem motivo para tudo isso'”, explica ela.

    A dor deve ser respeitada para que a pessoa consiga passar por todas as fases do luto e, por fim, chegar na última delas, que é a aceitação. A fase da aceitação é quando a pessoa consegue lidar com a perda com menos sofrimento do que no início, retomando aos poucos a normalidade em sua vida e se adaptando à nova realidade até o luto acabar.

    O processo de luto pode durar de três meses a um ano, podendo chegar até dois dependendo de cada pessoa. Caso a tristeza não diminua e o enlutado não consiga retomar sua vida e se sinta culpado ou triste o tempo todo, o problema se torna um luto patológico. Nesses casos, a depressão pode surgir e é de extrema importância buscar ajuda profissional especializada, como tratamento psiquiátrico ou psicoterapêutico, o mais cedo possível.

    Fim da dor e volta por cima

    A dor da perda da cachorrinha Cindy fez com que Márcia Zenezi, de 50 anos, enfrentasse um doloroso processo de luto e entrasse em depressão. Mas a empresária transformou essa tristeza profunda e fez uma grande mudança em sua vida. “Perdi a Cindy de uma maneira que nunca imaginaria. Esqueci a porta de casa aberta e ela foi para o vizinho. Já tinha 16 anos e não enxergava direito. Acabou caindo e se afogando na piscina”, conta ela.

    O luto pela cachorrinha fez com que Márcia começasse a perceber o quanto seu relacionamento era tóxico e a ajudou a tomar decisões importantes, como se divorciar e vencer a obesidade, após mais de 40 anos tentando emagrecer, assim, ela conseguiu perder 40 kg. “Quando a Cindy morreu, em vez de me apoiar, meu ex-marido me culpou, me chamou de assassina e de ‘velha esquecida’, disse que eu nunca arrumaria outra pessoa se me separasse. Esse foi o ponto de partida para começar a olhar para mim, para entender que precisava me amar mais e tomar várias decisões, como me divorciar, ter uma alimentação mais saudável e praticar exercícios”, conta Márcia, que escreveu um livro sobre a cachorrinha Cindy. “Nossa história foi de muito amor”, emociona-se ao lembrar.

    Cuidados na hora da despedida

    O falecimento de um animal de estimação querido pode ser ainda mais doloroso para o dono quando não há um período prévio de preparação e a morte acontece em um acidente ou poucos dias após descobrir uma doença, como no caso da filha de quatro patas de Dinalva. “Os dias seguintes à morte da Mel foram de muito sofrimento para mim, não conseguia comer, não tinha forças nem para andar. O meu olhar era parado no nada e tinha visões como se ela ainda estivesse ali, afinal foram 20 anos ao meu lado. Fiquei meses sem entrar no meu quarto, porque ela sempre estava lá”, relembra.

    Existem diversas formas de vivenciar o luto e a despedida também pode acontecer de diversas maneiras. “Não tem regra. A pessoa pode se sentir mais confortável em levar para a cremação ou enterrar, ou querer se livrar logo das coisas para não ficar pensando nisso”, afirma Rochelle Aweida Veras, que é psicanalista clínica.

    “Uma coisa bastante desafiadora é o que fazer com as coisas do pet. É fácil falar para eliminar logo para não olhar e lembrar. Mas cada um tem seu jeito de lidar, há os mais práticos que não querem ter o apelo visual para despertar um sentimento, já outros precisam daquilo para passar por todo esse processo”, observa a psicóloga especialista em terapia comportamental Daiane Daumichen ao falar sobre os aspectos do momento de despedida.

    Caso a pessoa sinta que necessita de um tempo a mais para se despedir desses objetos, é interessante que ela os guarde em uma caixa num lugar um pouco mais reservado. “Sempre que sentir saudade ou precisar recordar, recorra a esse espaço. É melhor do que jogar tudo fora por impulso e depois torturar-se por não ter mais nenhuma lembrança do animal de estimação”, aconselha a especialista.

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