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  • Medo da morte: conheça a sua construção histórica e saiba como superá-lo

    A naturalização do medo da morte atravessa a história da humanidade. Mas seria a maneira mais saudável de encarar a finitude? Descubra agora!

    Você já ouviu falar sobre tanatofobia? É o termo usado por profissionais da medicina para designar pessoas que apresentam um exacerbado medo da morte ou de morrer. 

    Aquelas pessoas que desenvolvem um medo da morte persistente e exagerado, chegando a sofrer de insônia, pânico, hiperproteção, entre outros sintomas, podem ser diagnosticadas com essa doença.

    A área de estudos específica que investiga essa temática – para além dos campos genéricos da Psiquiatria, Psicologia, Filosofia, Biologia etc. – é a Tanatologia, que ganhou espaço entre os cientistas depois das duas grandes guerras.

    De fato, a partir do século XX os estudos sobre a morte foram ampliando-se

    Havia o existencialismo de Martin Heidegger, o conceito de Super Homem de Friedrich Wilhelm Nietzsche, os avanços da genética e os impactos da filosofia e das ciências biológicas no pensamento religioso.

    De qualquer maneira, antes dessa reviravolta da Tanatologia, o tema da morte já havia sido estabelecido como um tabu, o que desencadeou em doenças como a tanatofobia, ou medo da morte, e na repreensão de pensamentos e conversas sobre o assunto.

    Mas por que temos medo da morte? O que podemos fazer para superar esse medo?

    Acompanhe o artigo e encontre as respostas para essas e outras perguntas. Boa leitura!

    A História: dos sacrifícios até a morte como tabu

    Dizer que, ao longo do tempo o tema da morte passou a ser tratado como tabu tem duas consequências claras:

    1. Que as pessoas passaram a evitar falar sobre o assunto, a repreender diálogos e pensamentos relativos à morte, a reprimir o tema diante de crianças, gerando gerações de pessoas com dificuldades de aceitar o ciclo da vida e lidar com a perda;
    1. Que antes, em algum momento da história da humanidade, a morte não era tabu e a população lidava de uma outra maneira com o assunto e com a experiência da morte.

    Então, antes de nos perguntarmos por que temos medo da morte é importante entender minimamente o processo histórico que transformou a morte em tabu.

    Por muito tempo e em diferentes culturas, a morte foi vista como uma honra. Dessa forma, não eram raras as culturas antigas que realizavam sacrifícios humanos como uma atitude honrosa e uma demonstração de respeito aos deuses e à natureza. 

    Mas, isso mudou nos últimos séculos, descubra abaixo o porquê.

    Significado da morte nas diferentes culturas 

    A civilização viking entendia a morte como um plano superior à vida. O cristianismo via a morte como um momento de justiça, de reparação dos pecados e de perdão

    Além disso, diversas tribos indígenas encaravam a morte como uma elevação da alma.  

    A visão religiosa da morte, enquadrada nas mais diversas culturas, sempre levou a uma postura positiva e corajosa frente ao fim da vida. 

    Mas essa postura condiz com um momento histórico em que a expectativa de vida era muito curta

    O índice de mortes neonatais era muito alto, pessoas que alcaçavam os 50 anos já eram consideradas idosas, muitas doenças matavam pessoas ainda jovens e não haviam direitos humanos, que determinam o assassinato como crime.

    Assim, a morte era algo comum no dia a dia das sociedades.

    Valorização da vida

    Quando as ciências médicas começaram a se desenvolver e as tecnologias evoluíram, passou-se a pregar uma valorização da vida.

    A expectativa de vida aumentou. Doenças foram superadas. Crianças sobreviviam com mais frequência. As famílias tornaram-se mais numerosas. O assassinato e a pena de morte passaram a ser refutados.

    Com isso, morrer passou a ser um sinal de fraqueza. A sociedade ocidental apegou-se ao direito à vida e à longevidade. Transformando, aos poucos, a morte em tabu e passando a temê-la.

    Criança morta, Portinari, 1944.

    Por que temos medo da morte?

    A morte como tabu traz o sentimento de desesperança, ao contrário do que acreditavam as populações mais antigas, a morte é um incômodo, um sinal de fraqueza e deve ser evitada.

    Muitos estudiosos descrevem o medo da morte como sendo uma reação comum frente ao mistério do desconhecido

    De fato, isso é uma verdade relevante: temos medo daquilo que não conhecemos e a morte é um dos poucos assuntos que não podemos dominar completamente.

    No entanto, não é intenção deixar transparecer que a valorização da vida é a responsável por gerar o medo da morte, como se a longevidade fosse algo ruim, que desencadeia aflições e fobias.

    Na verdade, o medo da morte é resultado do processo histórico descrito acima, mas não simplesmente por que as pessoas passaram a viver mais, mas sim por que a população mundial aumentou e também o tempo de vida das pessoas. 

    Isso sem que se desenvolvesse uma educação sobre a morte e um preparo para lidar com ela.

    Já que antigamente a morte significava uma nova oportunidade de redenção e elevação espiritual. 

    Além disso, as crianças, desde muito novas, acompanhavam esse processo e eram ensinadas sobre a morte e também havia uma esperança de missão cumprida baseada na herança, ou melhor, na passagem de conhecimento de uma geração à outra.

    Razões para termos medo da morte

    Mais recentemente, por outro lado, a morte passou a ser assunto sério. Assunto de adultos. Motivo de desestabilização familiar e vergonha, a depender do motivo do falecimento. 

    Privou-se, assim, o trato da morte como algo natural e inerente à vida. Por tudo isso detalhado acima, temos medo da morte, pois:

    1. Viver passou a ser mais importante que morrer;
    2. Mortes por doenças passaram a ser motivo de vergonha e sinônimo de fraqueza;
    3. A abundância de informação e a sofisticação do conhecimento fez com que o assunto da morte fosse algo perigoso, por ser um dos poucos que não podemos dominar nem controlar;
    4. O assunto passou a ser sigiloso, um tabu, de maneira que as crianças cresciam privadas de saber o pouco que é possível conhecer sobre os limites da vida, criando uma geração despreparada e temerosa.

    Esse cenário faz a humanidade chegar ao século XXI sofrendo de instabilidades psicológicas e emocionais como a tanatofobia.

    Nesse contexto, enfrentar uma situação de pandemia mundial com um vírus letal como o é o covid-19 pode ser desesperador para muitas pessoas.  

    Está mais do que na hora de nos fortalecermos e conseguirmos valorizar a vida sem perder de vista que a morte é natural e inevitável.

    Pintura sobre o luto, mural datado de cerca de 1400 anos a. C, Egito Antigo.

    Como superar o medo da morte?

    Em primeiro lugar, para tratar deste assunto é preciso ter certo cuidado. Se você identifica em si alguns dos sintomas de tanatofobia já citados aqui anteriormente, procure um especialista

    Caso acredite que sua ansiedade e seu pânico sobre a morte ou seu medo de morrer fogem do normal, consulte um psicólogo ou um psiquiatra, eles darão um direcionamento adequado para você superar seu problema.

    Por outro lado, se o seu medo da morte é contido, ou seja, faz parte da construção histórica da nossa sociedade e não afeta diretamente o seu cotidiano, há algumas maneiras de trabalhar isso. 

    O objetivo desse autocuidado é de que o quadro de ansiedade que você já identifica não se torne uma fobia, de que seja possível lidar com o luto sem cair em depressão e de que você não deixe de viver a vida e aventurar-se por medo de morrer.

    Assim, confira algumas possibilidades de como superar o medo da morte que destacamos para nossos leitores:

    1. Estude biologia

    Essa é a área do conhecimento que descreve o ciclo da vida e ambienta o lugar do ser humano diante dos outros animais. Podemos diminuir o mistério em torno da morte explorando como funciona nosso corpo, do que ele é constituído e como fazemos parte da natureza. 

    1. Leia bastante sobre o assunto

    A leitura, principalmente dos grandes filósofos, vai te ajudar a entender melhor sobre esse tema e superar o medo da morte.

    Pois, eles, muito antes de você, já se inquietaram sobre o assunto da morte e passaram anos desenvolvendo teorias sobre os limites entre a vida e a morte, assim, o conhecimento deles pode ser uma inspiração para você encarar a morte sem medo.

    1. Apegue-se a sua religião

    Se você é religioso, investigue o que sua crença diz sobre o assunto da morte. Todas elas possuem sua maneira própria de entender o fim da vida, algo precioso para trazer maior conforto aos corações e tranquilizar as mentes.

    1. Aproxime-se de assuntos positivos! 

    Se você tende à ansiedade e à depressão, não se sobrecarregue de notícias ruins, procure assuntos leves, conteúdos alegres e experiências otimistas no que diz respeito à morte. É uma ótima maneira de não aumentar suas aflições. 

    1. Crie um ambiente agradável para si mesmo! 

    Use e abuse das coisas boas da vida, aproxime-se do que você gosta, cores, sabores, odores e sensações. Assim, quando o seu fim estiver próximo você saberá que o tempo que esteve na Terra valeu a pena.

    Antes de qualquer coisa, entenda que a morte é a única coisa irreversível e inescapável

    Isso é importante para que, quando a morte se aproximar de você, seja possível não se desesperar, mas sim entender que a dor e a perda são intrínsecas à vida e fazem parte do ciclo natural de qualquer ser vivo. 

    Em outras palavras, não deixe que o medo da morte lhe impeça de viver! Como diria o filósofo Leon Tolstói: “Quem não tem medo da morte possui tudo.”

    Quer saber como homenagear um ente querido e matar a saudade de uma maneira diferente, que desperte alegria apesar da morte? Leia também: Homenagem póstuma: nunca é tarde demais para relembrar.

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