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  • Conheça os mistérios da decomposição do corpo humano

    Qual o momento exato da morte? Como calcular há quanto tempo uma pessoa morreu? Por que ela veio a óbito? Essas são algumas das questões que podem ser respondidas somente conhecendo os processos naturais de decomposição do corpo humano. Confira tudo sobre esse tema!

    Quadro Morente, Giuseppe Mazzini, 1873.

    Estudos sobre a decomposição do corpo humano existem há milhares de anos. A sociedade mais antiga de que se tem notícia de inserir em sua cultura a manipulação do processo natural pós-morte é a egípcia. 

    Atualmente, ninguém mais se decompõe naturalmente, já que existem técnicas para impedir esse processo.

    O embalsamamento, com origens no Egito, mas bastante adaptado pelas tecnologias modernas, é uma dos procedimentos que estão aí para interferir na decomposição natural, ao lado da tanatopraxia, uma prática mais recente. 

    Por outro lado, a cremação, outra técnica incrivelmente antiga na humanidade, é ainda mais exigente nesse sentido, pois tem como objetivo inibir qualquer possibilidade de decomposição do corpo humano

    Mais recentemente, a compostagem humana foi pensada como uma alternativa ecologicamente correta para os milhões de corpos humanos sem vida que contaminam o ambiente anualmente e geram inúmeros prejuízos ambientais.

    Não importa se concordamos ou não com qualquer uma dessas tecnologias, o que importa é que elas existem por um motivo: a análise sistemática de como ocorre a decomposição do corpo humano.

    Confira essa dica de leitura: Arte ou ciência: afinal, o que é taxidermia?

    O que é a decomposição do corpo humano?

    Pesquisas são realizadas ao redor do mundo, para investigar como os cadáveres se comportam em diferentes condições de temperatura e pressão: em contato com o solo, na água salgada, na água doce, no deserto, em ambientes úmidos etc. 

    Esse processo é conhecido como a decomposição do corpo humano.

    Pode não ser o emprego mais agradável do mundo, mas taxonomistas, entomologistas forenses, entre outros cientistas da área, são os que permitem que os humanos se conheçam e se reconheçam como parte de um ecossistema

    Além disso, são eles que oferecem o conhecimento necessário para desvendar crimes, para realizar a identificação de pessoas e para ampliar as possibilidades do que fazer com os corpos mortos sem ferir a natureza e mantendo uma coerência diante dos fatores culturais que envolvem a sociedade.

    Assim, vamos explorar o que se sabe até aqui sobre a decomposição do corpo humano, de maneira simples e evitando vocabulários técnicos, para que as fases do processo sejam visuais e acessíveis. 

    Depois, apresentaremos algumas das situações em que esse conhecimento tem relevância.

    Prepare um copo d’água, desembrulhe o estômago e boa leitura!

    Conheça também: A morte do outro lado do globo: conheça o funeral no Japão.

    Passo a passo da decomposição do corpo humano

    Nossa explicação vai ser dividida em tópicos, desvendando todas as fases do processo que resulta na total dissolução do corpo.

    Para você, que é curioso, confira: Arte ou ciência: afinal, o que é taxidermia? 

    O óbito

    Uma pessoa é declarada morta quando não se identificam mais os sinais vitais. 

    Pode parecer óbvio, mas esse conceito é importante, pois define na medicina e na legislação, o limite entre a vida e a morte, influenciando nas decisões sobre tratamentos médicos de pessoas em fase terminal. 

    Além disso, tem relação direta com procedimentos ainda controversos ao redor do mundo, como a eutanásia e o prolongamento da vida por meio de aparelhos.

    Assim, independentemente da causa da morte, ela é confirmada quando não há mais atividade neurológica ou cardíaca. 

    Ou seja, o falecimento começa pelo cérebro ou pelo coração. A inatividade desses órgãos interfere gradualmente no funcionamento do restante dos sistemas.

    No instante em que o coração para de bombear sangue ou que o cérebro não envia mais sinais para o restante do corpo já se inicia o processo de decomposição.

    Decomposição inicial

    Nas primeiras horas após a morte, o corpo passa por um enrijecimento, causado pela anulação da assimilação do cálcio, o que faz com que tudo endureça. 

    Essa é a primeira evidência mais marcante da decomposição. Depois de um tempo, porém, o cálcio também se desintegra e segue seu caminho, levando a um novo desenrijecimento. 

    Em simultâneo, o corpo entra em um processo conhecido como autodigestão. Como o oxigênio para de circular pelos sistemas biológicos, as células não conseguem mais promover as reações químicas, inviabilizando a troca de substâncias. 

    Assim, toxinas acumulam-se no interior das células, com isso, as enzimas que ali habitam começam a consumir o material celular de dentro para fora

    Todos os tecidos e órgãos passam por esse processo, embora a autodigestão seja iniciada no cérebro, por seu alto volume de água, e no fígado, pela grande quantidade de enzimas que comporta.

    O resultado é que, em pouco tempo, a massa cinzenta vira um caldo fétido, que pode escorrer pelas narinas. 

    Por isso, um dos primeiros procedimentos de preparação do corpo pós-morte é tampar as cavidades, impedindo o fluxo natural do cérebro decomposto. 

    A desintegração espontânea das células

    As células mortas, ou o que restou delas, são submetidas ao poder da gravidade e acabam fixando-se em microvasos capilares e venosos, isso faz com que todo o corpo assuma uma coloração pálida.

    Nessa fase, o sangue coagula gradualmente, tornando-se denso e gelatinoso. Essas partículas se acumulam nas regiões próximas ao chão, por conta da gravidade, de maneira que determinadas partes do corpo ficam com manchas roxas. 

    Assim, esse fato permite diversas análises, entre elas contribui para calcular há quanto tempo a pessoa faleceu e também a posição em que caiu morta.

    Isso porque as poças de sangue acumulam em lugares específicos, a depender da disposição do seu corpo e demoram para mudar de lugar, visto que a gosma sanguínea escorre vagarosamente. 

    Assim, se os coágulos estão concentrados na barriga e peitoral, por exemplo, mas o corpo foi encontrado deitado de costas, pode ser um indício de que alguém transferiu o cadáver de lugar.

    Putrefação

    O corpo humano é um verdadeiro universo de microrganismos; Assim, hospedeiros e parasitas vivem em perfeita harmonia graças ao sistema imunológico, que regula a atividade das bactérias. Elas possuem um papel fundamental para a saúde humana, especialmente no que se refere ao sistema digestivo.

    Com o falecimento das células, as defesas do corpo param de funcionar, abrindo espaço para que as bilhares de bactérias ajam livremente. 

    Dessa forma, elas devoram tudo e aos poucos, quebram as barreiras internas, destroem as ligações entre os órgãos e suas sustentações, de maneira que eles ficam soltos por entre os ossos.

    Nesse processo, as bactérias vão liberando gases próprios de seu sistema energético, isso significa que esses gases vão acumulando-se no interior do corpo, causando inchaço em várias áreas.

    Esse momento em que os inchaços são visíveis é caracterizado por ser um estágio mais avançado da decomposição humana. 

    São raras as pessoas vivas que presenciam isso, já que, a essa altura o cadáver já está muito bem enterrado e distante de nossos olhos.

    No entanto, esse gás produzido traz diversas consequências: há cientistas que afirmam que é possível que ocorram explosões. 

    Seria difícil afirmar isso veementemente, no entanto, todos concordam que os gases vão sendo liberados pelo ânus, vagina e outras cavidades, atraindo a atenção de insetos necrófagos e outros animais (a depender do lugar em que esse cadáver se encontra).

    A interferência de organismos externos inaugura mais uma etapa da decomposição, como veremos a seguir:

    Putrefação escura

    Larvas e moscas-varejeiras são os principais insetos responsáveis pela decomposição do corpo humano. 

    Elas agem rapidamente e em poucos dias a pele, a carne e tudo aquilo que restou da autodigestão são consumidos, inclusive as roupas que o cadáver veste, especialmente se forem de algodão.

    O corpo humano sem atividade é um habitat completo para esses insetos e propicia um fenômeno denominado colonização, em que o cadáver vira parte do ecossistema que provê os bichos comedores de defunto.

    Esqueletização

    Enfim, sobram ossos, dentes, cabelos e unhas. Formados por minerais, tais elementos não são afetados pela autodestruição das células, pela atividade bacteriana nem pela fome dos insetos necrófagos. 

    Isso não significa que eles não se decompõem, acontece que, por não serem substâncias carbônicas sua desintegração depende do nível do pH do ambiente em que permanece. 

    No solo de locais ricos em matéria orgânica, a decomposição é mais rápida, dentro de um caixão lacrado esse tempo é muito mais prolongado, em regiões muito frias e cobertas por gelo não se sabe quantos milênios esses restos mortais demoram para ser assimilados pela natureza.

    Evolução da conservação do corpo humano

    As técnicas de conservação do corpo humano usadas atualmente só são possíveis graças à compreensão de como ocorre a decomposição dos cadáveres

    Levou-se muitos séculos para se alcançar uma prática de conservação que suprisse nossas necessidades sociais e culturais, isso porque observar um corpo humano decompondo-se não é uma experiência agradável.

    Estima-se que a primeira consciência sobre o processo aconteceu entre os egípcios. Eles enterravam os corpos na areia quente, em certo momento, percebeu-se que os cadáveres se mantinham conservados, então resolveram criar espaços específicos para cultuar os entes queridos, mas, fora da areia os corpos não duravam muito.

    Foi assim que passaram a higienizar os corpos com sal e água, inibindo a ação das bactérias, a preencher os espaços e envolver o cadáver com tecidos sintéticos, dando origem às múmias.

    No entanto, isso só foi possível pela percepção de fator importante para o processo de decomposição:

    Qual a influência da temperatura na decomposição do corpo humano?

    Para pensar sobre isso vale destacar que os processos de decomposição do corpo humano que listamos anteriormente não seguem uma sequência exata. 

    Pois, tudo acontece simultaneamente e cada etapa possui seu próprio tempo para ser concluída, a depender das condições do ambiente externo.

    Quando o corpo para de funcionar, a regulação da temperatura corporal é um dos primeiros fatores que sofre alteração. 

    Assim, o cadáver gradualmente iguala sua temperatura ao ambiente. E em grande parte das vezes a temperatura cai cerca de 10 graus, o que cria a ideia universal do cadáver gélido.

    No entanto, em regiões com temperaturas elevadas, como os desertos, a temperatura do corpo sobe ao invés de diminuir, isso resulta na evaporação de toda a água corporal, ressecando a pele e fazendo com que ela se torne um escudo que mantém o corpo conservado. 

    Foi isso que aconteceu com os egípcios enterrados nas areias antes de criar-se as múmias.

    Ao mesmo tempo, esses lugares de muito calor são impróprios para a atividade de micróbios responsáveis pela decomposição, de maneira que as bactérias e os insetos não têm uma ação muito efetiva no consumo da matéria orgânica dos cadáveres.

    Algo semelhante acontece em regiões muito frias, em que a temperatura baixa e o ambiente congelado, além de proporcionar um freezer ao cadáver, impede a existência dos organismos decompositores, fazendo com que o processo natural de decomposição demore muitos e muitos anos.

    Como ocorre a decomposição do corpo humano na água?

    Pesquisas indicam que na água a decomposição dos cadáveres acontece em outro ritmo. A alta umidade cria uma camada protetora que dificulta os processos de decomposição que narramos aqui. 

    Além disso, em lugares muito profundos há pouco oxigênio e poucos predadores, de maneira que nem as bactérias nem outros animais fazem o papel de consumir o falecido.

    Ou seja, os corpos se mantêm conservados em lagos e oceanos se afundarem muitos metros.

    A conservação do corpo humano na atualidade

    Todos esses conhecimentos levaram pesquisadores a desenvolverem técnicas de conservação convenientes para a cultura do funeral na sociedade ocidental. 

    Assim, o embalsamamento e a tanatopraxia são fundamentadas em práticas que retardam o processo de decomposição, a fim de manter o corpo por mais tempo em bom estado antes do enterro.

    Isso permite que realizemos todos os cultos e homenagens desejados sem que o cadáver se desintegre diante de parentes e amigos. 

    Dessa forma, o processo de decomposição chega em sua fase crítica de inchaço, mau cheiro e exteriorização de gases já dentro do caixão a sete palmos da terra, graças às técnicas de conservação.

    Além disso, foram muitos os familiares que viram as tripas e cérebros de seus amados falecidos vazando pelas cavidades, antes de se descobrir que o vazamento se devia à rápida decomposição desses órgãos e que a solução era simplesmente tampar tudo com algodão. 

    Esse é um bom exemplo de como a biologia contribuiu para uma despedida mais confortável ao estudar os processos de decomposição.

    A conservação do corpo é importante para casos em que a morte passa por investigação criminal e o cadáver não pode ser encaminhado para o sepultamento ou para a cremação tão cedo. 

    Assim, para garantir que a investigação seja efetiva é preciso conhecer os sinais que o corpo morto oferece e conservá-lo, tanto para fazer as análises quanto para liberá-lo para o funeral depois de concluídos os procedimentos policiais.

    Os estudos sobre a decomposição do corpo humano

    Apesar de já haver muitas informações sobre o assunto, ainda há lacunas que poderiam ser preenchidas com pesquisas científicas mais aprofundadas

    Dessa forma, grande parte do que se sabe sobre a decomposição do corpo humano se dá por experiências inusitadas e ocasionais, não por meio de análises sistematizadas.

    Atualmente, essas pesquisas ganham espaço e fomento, diante da ampliação da medicina forense e da polícia forense

    O fato é que muito se sabe sobre o que ocorre com o cadáver dentro do caixão, afinal, muitos corpos são exumados e inumados, e a observação dos fenômenos biológicos nesse contexto é mais frequente.

    No entanto, pouco se sabe sobre o processo de decomposição em outros ambientes, como quando o corpo fica exposto a animais predadores sob a superfície da terra em locais longe de centros urbanos. 

    Ou então, quando fica enterrado sob poucos centímetros de terra, sem nada o envolvendo ou envolto em saco plástico, ou ainda quando está em contato com o solo, mas não é atacado por animais carnívoros.

    Conheça também: Descanse em paz: o que é reinumação?

    Por que pesquisar a decomposição do corpo humano?

    Pesquisadores consideram importante investigar tais situações entre outras, pois se sabe como ocorre a decomposição do corpo humano, mas há poucas observações do que acontece com o ecossistema no entorno desse cadáver que foi descartado de maneira inapropriada depois de um ato criminoso.

    Esse é o trabalho realizado no laboratório de antropologia forense da Universidade do Sul da Flórida, em que cadáveres doados para pesquisa são colocados em terreno aberto para se decompor livremente, submetidos às condições do ambiente e da natureza.

    Os pesquisadores manipulam os processos mudando algumas condições, para analisar as diferenças: um corpo fica somente jogado na grama, sujeito a todo tipo de intervenção natural, outro fica ligeiramente enterrado, outro fica protegido dos grandes animais por uma gaiola.

    Assim, eles observam o que acontece com o solo, com as plantas, qual o comportamento dos animais ao redor, como o meio ambiente interfere no processo de decomposição, a fim de encontrar padrões que favoreçam a investigação de crimes e a localização de corpos desaparecidos.

    Saiba mais: Qual a diferença entre autopsia e necropsia?

    A compostagem humana: seria mesmo viável?

    Os estudos sobre a decomposição do corpo humano também permitiram o desenvolvimento de uma tecnologia ainda muito nova e extremamente controversa: a compostagem humana.

    Há pouco mais de um ano, em março de 2020, O Jornal da USP anunciava: “Compostagem humana surge como alternativa ao sepultamento e à cremação. Novidade entra em funcionamento no próximo ano, nos Estados Unidos, mas dificilmente será adotada por aqui.”

    Não há indicativos de que a medida seja aceita ainda em 2021 como uma via para o destino dos corpos dos estadunidenses falecidos, no entanto, no Brasil isso fica ainda mais inviável, não por não termos a tecnologia necessária, mas por não termos uma cultura flexível o suficiente

    O conservadorismo brasileiro, de uma população majoritariamente católica, mal aceitou a cremação, quanto mais aceitaria um funeral envolvendo uma prática cujo nome é “compostagem humana”.

    Alguns diriam ser desumano e pouco digno dar ao corpo de um ser humano o mesmo destino das folhagens das árvores ou dos excrementos das minhocas. 

    Já outros afirmariam que precisamos urgentemente encontrar soluções ambientalmente corretas para os milhões de cadáveres ao redor do mundo.

    Conflitos ideológicos à parte, a tecnologia de compostagem humana existe e o que está feito não pode ser desfeito.

    Tecnologia de compostagem humana explora a decomposição natural do corpo.

    O que é a compostagem humana?

    A técnica é totalmente baseada no processo natural de decomposição do corpo humano

    Dessa forma, os cadáveres são colocados em contêineres e submetidos a condições ideais de umidade e oxigênio para que as bactérias responsáveis por consumir o material degradável façam seu trabalho com mais rapidez.

    Assim, a decomposição é totalmente natural, apenas manipulada para ser mais rápida, e resulta em reduzir os corpos em compostos orgânicos próprios para adubação. É uma prática que contrapõe as tradições existentes até hoje e socialmente aceitas.

    Se por um lado a cremação é um tipo de funeral muito antigo, por outro, exige muitos recursos naturais, gasta muita energia para incinerar o corpo por completo e ainda emite gases poluentes na atmosfera. 

    O sepultamento, por sua vez, é a prática mais comum, mas ocupa muito espaço, demora muito tempo para que o corpo dentro do caixão retorne à natureza e causa riscos de contaminação ao solo e aos lençóis freáticos.

    Tudo isso é solucionado pela compostagem humana, o problema maior seria convencer as pessoas de que transformar seu corpo em composto para a terra não inviabiliza os cultos fúnebres, as homenagens póstumas nem fere os princípios da dignidade humana. 

    Por ora, vale lembrar que nada disso seria possível se não fossem séculos e mais séculos de observação do processo de decomposição do corpo humano.

    Fique por dentro do assunto, leia também: A terceira via pós-morte: cremação por hidrólise.

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