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  • Como viver o luto: saiba lidar com o sentimento do sobrevivente

    Ver alguém próximo e querido morrer não é tarefa fácil, mas também não precisa significar a morte psicológica de quem fica. Conheça a importância de viver o luto e como fazê-lo de maneira saudável.

    A palavra luto tem origem latina, vem do termo luctus, que carregava o significado de “dor”, “lástima”, “mágoa”. Assim, seu uso está intimamente ligado ao sentimento negativo da perda e saber como viver o luto é um dos grandes desafios da humanidade, principalmente agora com a pandemia do novo coronavírus.

    A Filosofia é uma das grandes áreas que, há séculos, empenha-se em entender como o luto age no psicológico humano e o que isso, de fato, significa. 

    Foram muitas e extensas as abordagens em torno do assunto e, hoje, a Psicologia e a Psicanálise são algumas das áreas que dão continuidade ao estudo de como viver o luto.

    Para alguns filósofos o luto está ligado a questões da existência humana, ocupa, assim, o espaço da compreensão entre a vida e a morte. Viver o luto não significa, necessariamente, as reações diante do falecimento de alguém.

    Vejamos então qual a importância de viver o luto e como podemos torná-lo uma experiência de desenvolvimento pessoal.

    Está pronto(a) para encarar um dos maiores males da existência humana? Respire fundo e boa leitura, sabendo que você terminará essa leitura muito mais consciente e preparado para enfrentar a vida e suas fatalidades.

    O que é o luto?

    Já é consenso que o luto pode vir a ocorrer diante da perda de pessoas ou de objetos afetivos

    O fim de um ciclo, como a passagem entre a infância e a adolescência, pode desdobrar-se em um momento de luto. Assim como perdas materiais também podem fazer com que alguém experimente o sentimento de luto.

    De toda maneira, o luto é intrínseco ao desenvolvimento humano, inescapável e presente na vida de todos nós. 

    Faz-se um fenômeno natural que tem efeitos a nível mental, mas que também pode desenvolver-se como patológico e causar efeitos em outros níveis, tais como queda da imunidade e restrição alimentar.

    Apesar disso, viver o luto não é de todo uma experiência negativa, pois gera fortalecimento, amadurecimento, crescimento e autoconhecimento para aqueles que o superam.

    O luto é uma experiência mental, que age no psicológico. Diante da perda de alguma pessoa ou objeto por quem ou pelo qual temos apego, acontece uma ruptura com o desejo

    Compreender que algo que estava localizado em nosso campo de afeto não faz mais parte da nossa realidade é um movimento que exige tempo e autocuidado.

    Uma leitura que talvez lhe interesse e que descreve uma expressão da vivência do luto é: Qual o significado simbólico do cortejo fúnebre?.

    O que significa viver o luto?

    O luto significa, então, a fase em que criamos uma prolongação da existência daquilo que já se foi

    Viver o luto passa pela não aceitação da morte, um período em que a realidade não é palpável frente à ausência. Assim, demoramos a compreender essa falta, insistindo na existência e na permanência de algo que já não faz parte de nossas vidas.

    Dessa forma, é um momento de suspensão, em que a realidade não faz sentido, a lacuna se faz persistente e entender que algo ou alguém que desejamos e amamos não pode mais estar materialmente presente leva-nos a elaborar uma realidade paralela, em que aquilo ou aquele ainda existe.

    É realmente algo difícil de entender, tanto sentimental quanto teoricamente, e é um dos objetos de estudo de psicanalistas como Freud, amplamente reconhecido pela sua investigação sobre o luto.

    Quem vive o luto é chamado de sobrevivente, que faz alusão não apenas ao fato de que a pessoa viu a morte de perto, mas que ela tangenciou um fim existencial e manteve-se viva

    Essa nomeação é uma tentativa de dar um significado positivo ao luto, no sentido de que o(a) enlutado(a) passa por uma experiência de sobrevivência, ou melhor, ele/ela sobrevive e segue adiante em sua existência apesar de ter enfrentado uma desafiante luta interna, no limiar entre a vida e a morte.

    Qual o sentimento do luto?

    O luto é uma reação psicológica diante da perda, dessa maneira é impossível definir um padrão de comportamento entre aqueles que vivem o luto. 

    Já que, cada pessoa experimenta esse momento de uma maneira diferente e desenvolve os efeitos com maior ou menor intensidade. 

    O que é possível identificar como sendo comum a todos e a todas é a frustração, o sentimento de ineficiência,  a dificuldade em aceitar a nova realidade, a sensação de uma lacuna a ser preenchida, um estado de lamentação. 

    Dentre as causas do luto podemos destacar:

    • Morte parental;
    • Perda de emprego;
    • Separações afetivas (tais como conjugais ou distanciamento de um filho que foi morar longe, entre outras possibilidades);
    • Morte de filhos;
    • Perda de algum membro do corpo;
    • Morte neonatal ou perda gestacional;
    • Fases transitórias (tais como a passagem da infância à adolescência, o fim de um casamento – que também se enquadraria em separações afetivas -, uma mudança drástica de domicílio,  a conclusão de um curso de formação – que muda completamente a estrutura e a rotina -, entre tantas outras possibilidades).
    • Morte de entes queridos;
    • Perdas materiais.

    Assim, o(a) enlutado(a), tal qual teorizado pela psicanálise, não se faz apenas diante do óbito, o sentimento de luto corresponde à ruptura do desejo, ao processo de aceitação de mudança da realidade. 

    Muito embora não haja dúvidas de que o luto diante de um falecimento é o mais desafiador e doloroso, desdobrando-se em uma mudança irreversível, tanto da condição material quanto psicológica e comportamental.

    Os desdobramentos do luto

    Não há um tempo calculável para a duração do luto, pode ser uma fase passageira e curta, como pode prolongar por anos. É possível, inclusive, que haja um momento em que o sentimento do luto parece esvair, mas volta a aparecer depois de um tempo.

     Aquele que está em seu momento de viver o luto encontra-se em estado de melancolia, sendo o choro comumente presente e natural. 

    Em muitos casos essa vivência causa crises familiares, uma vez que a ausência de um dos membros da família exige uma redistribuição de funções e tarefas, uma reorganização da rotina, do espaço físico do lar. 

    É mesmo um exercício de renúncia que desenrola-se em um desequilíbrio frente às atividades cotidianas, uma descontinuidade das relações afetivas diante da perda do vínculo e da separação. 

    Assim, a tristeza, a culpa, a instabilidade emocional, a reclusão, a dificuldade em comunicar-se, a distração, a falta de apetite, a falta de motivação, são algumas são reações naturais por qual passa o(a) enlutado(a) durante o processo que levará o sujeito a aprender uma nova maneira de encarar o desafio de criar novos vínculos afetivos.

    Em quadros mais graves, o indivíduo pode desenvolver estresse pós-traumático. Viver o luto pode virar uma patologia e isso pode ser identificado depois de cerca de seis meses de luto em que o(a) enlutado(a) não demonstra sinais de melhoria.

    É sempre importante se fortalecer, então aqui vai uma dica de leitura: Palavras de conforto para encontrar a paz.

    O luto como patologia

    Quando viver o luto transforma-se em uma realidade constante e não passageira é possível que se torne um caso clínico.

    É importante que o enlutado seja cuidado por alguém, que acompanhe as fases do luto e observe a melhora do quadro. Se por um lado viver o luto é natural, por outro a persistência é psicopatológica.

    Quando o sujeito não apresenta melhoras precisa ser encaminhado para cuidados médicos, mas não devemos levar em conta que o luto seja uma doença. Considerar o(a) enlutado(a) um doente apenas contribui para o agravamento do quadro

    Ele/ela é simplesmente alguém que precisa de orientação para seguir adiante, para desenvolver autoconhecimento, conhecimento sobre o ciclo da vida e sobre a efemeridade da existência.

    Representação de uma pessoa em estado de depressão.

    Quando procurar assistência de um profissional?

    Alguns sinais que podem demonstrar agravamento do desequilíbrio psicológico e um possível estresse pós-traumático são:

    • Disfunção alimentar – em que a pessoa não consegue alimentar-se corretamente, causando déficit nutricional que pode acarretar em outros problemas de saúde;
    • Alcoolismo – consumo excessivo, cotidiano e descontrolado de bebidas alcoólicas, que desencadeiam problemas de saúde e impedem que o sujeito viva em sociedade;
    • Desenvolvimento de outros vícios – qualquer consumo excessivo pode ser sinal de impossibilidade de recuperação sem acompanhamento médico, como uso de farmacêuticos, de nicotina, muito tempo em frente à televisão etc; 
    • Depressão – torna-se depressão quando a pessoa desenvolve um quadro contínuo e permanente de isolamento, sem conseguir realizar atividades básicas inerentes à sobrevivência por um longo período de tempo.

    Como já dito, é impossível prever como uma pessoa reagirá ao luto, isso depende muito de sua experiência de vida, do grau de afetividade que tinha com o objeto ou com a pessoa perdida. 

    A intensidade dos sentimentos do luto

    Outros fatores variáveis que determinam o luto são: a dimensão da quebra da expectativa, o grau de confiança em relação à auto-estima e, principalmente, como ocorreu a morte, ou seja, o contexto total que a pessoa sobrevivente teve de encarar – se foi uma morte violenta ou acidental, se o enlutado presenciou a cena da morte etc. 

    É possível afirmar que o luto materno é um dos mais extremos, uma vez que a perda de um filho ou de uma filha é das mais desoladoras.

    Por outro lado, o luto infantil também é grave, pois pode desencadear em problemas futuros, uma vez que a criança tem poucos recursos para lidar com seus sentimentos e, sem conseguir entender e superar a perda, pode arrastar o sentimento de luto ao longo da vida.

    Quer saber mais sobre os efeitos psicológicos da morte? Então você não pode deixar de ler: Medo da morte: conheça a sua construção histórica e saiba como superá-lo  

    A importância do luto

    Não é possível afirmar categoricamente que todas as populações têm sua maneira de viver o luto. Ao menos não sem fazer uma ampla investigação histórica em diferentes espaços geográficos. 

    Mas não há dúvidas de que o luto é um conceito presente na grande maioria das culturas e configura-se em um momento de revelações e rupturas.

    A importância que se dá ao luto vem da necessidade de se desenvolver métodos e ferramentas para superá-lo, para ser possível sobreviver diante de uma realidade totalmente nova.

    Povos indígenas, populações ocidentais, orientais, urbanas ou rurais, todos têm a sua maneira de viver o luto, e há registros em todos os tempos históricos, para se ter uma dimensão do caráter universal, natural e inescapável do luto na vida humana

    O luto na antiguidade

    Um dos grandes estudiosos sobre a importância do luto é o filósofo chinês amplamente conhecido Confúcio (551 a.C – 479 a.C). Para ele, viver o luto não é apenas algo natural, mas demonstra respeito e uma responsabilidade afetiva – usando um termo moderno para descrever uma teoria antiga – para com a pessoa amada que se foi.

    Em um dos seus escritos, ele descreve que o luto parental, ou seja, o entristecimento pela morte de uma mãe ou de um pai, pode durar até três anos

    Confúcio afirma que esse é o período mínimo que o sobrevivente deve dedicar-se a demonstrar seriedade a respeito da importância que o falecido tinha em sua vida. 

    Claro que não devemos levar isso como regra, afinal, o luto é uma questão cultural e entre a China Antiga, momento em que Confúcio viveu, e o Brasil contemporâneo há uma distância histórica, geográfica e cultural muito grande.

    Ainda assim, os estudos de Confúcio sobre o luto nos fazem refletir sobre a importância de nos relacionarmos com a nossa ancestralidade, de darmos significados positivos às relações que construímos em vida e de nos aproximarmos de nossa crença religiosa.

    Se você gosta de percorrer as diferentes concepções sobre o pós-vida, pode ser de seu interesse o artigo: Você sabe o que é reencarnação? Entenda o seu significado!

    Estátua do filósofo Confúcio, estudioso da morte e do luto.

    Como viver o luto no Brasil contemporâneo?

    Muitos brasileiros têm vivido o luto atualmente, mais que o normal, por conta dos diários casos de morte por Covid-19. Há mesmo pessoas que perderam toda a família para o vírus, o que se configura em um estado de luto realmente delicado.

    É preciso, portanto, ter consciência da importância de se viver o luto e isso se inicia em permitir-se sentir.

    Para que viver o luto cumpra sua função de aprendizado, superação, compreensão da dinamicidade da vida, desenvolvimento de autoconhecimento e auto-estima é extremamente necessário aceitá-lo. Isso significa que não devemos negar o luto.

    Dicas de como viver um luto

    Enfim, é preciso permitir-se viver o desafio fúnebre para tornar-se um sobrevivente:

    • Aceite o choro, deixe as lágrimas cumprirem seu papel de purificação; chorar é, muitas vezes, libertador. Há mesmo quem diga que não chorar diante da morte significa a negação do luto e alguém que não o faz nunca conseguirá seguir em frente e encarar a nova realidade;
    • Permita-se lembrar, acesse duas memórias afetivas, corrobore para que o apego à imagem e à lembrança da pessoa amada possa levá-lo à compreensão da morte e ao despertar da gratidão e da felicidade que se tem pela oportunidade de ter conhecido e compartilhado momentos com a pessoa falecida;
    • Não deixe-se em segundo plano; coma bem, faça as higienes básicas, engaje-se em atividades que lhe dão prazer ainda que em estado de tristeza. O autocuidado é fundamental para viver o luto;
    • Procure ajuda, converse com alguém de sua confiança, exteriorize seu sentimento a fim de compreender a dor do luto, que é única e variável de pessoa para pessoa e, portanto impossível de ser descrita de maneira universal;
    • Escreva, anote em um papel as suas ansiedades e anseios, é essa uma maneira de conversas consigo mesmo e organizar os sentimentos do luto;
    • Realize homenagens póstumas, pode ser uma boa maneira de se conectar com a pessoa amada e de suprir a lacuna impreenchível.

    O luto e a espiritualidade

    Relacione-se com seu espiritual; não importa se você é ateu, budista, cristão, ou outro, a relação espiritual com a religiosidade significa o entendimento do seu eu interior mediante a natureza da vida. 

    Mesmo pessoas que não seguem nenhuma religião têm sua compreensão existencial sobre a vida e a morte

    O autoconhecimento deve ser construído através do inexplicável, do que é misterioso na incrível arte de viver, e o luto é propriamente isso: lidar com o inexplicável indesejável. 

    Seja pela religião ou pela ideologia, conecte-se com a crença que lhe faz sentido e caminhe a fim de unir a razão e a emoção em direção ao crescimento que é resultado da superação do luto.

    Preparamos esse conteúdo para que possamos avançar, juntos, no entendimento da condição humana e para que saibamos lidar com sabedoria com o sentimento de morto. Lembre-se: viver o luto é libertador!

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