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  • Arte ou ciência: afinal, o que é taxidermia?

    O conservacionismo das espécies e a sua catalogação muito têm a agradecer aos taxidermistas. Mas você sabe o que é taxidermia e como essa prática surgiu? Leia a seguir!

    Taxidermia é uma palavra grega, formada por “taxis” que significa “arranjo” e “derme” que remete à pele. Portanto, compreende técnicas para dar formato a pele de animais mortos. Mas essa explicação diz muito pouco sobre em que realmente consiste essa técnica. Então, na prática, o que é taxidermia e como ela é aplicada?

    Os taxidermistas são os profissionais que a aplicam, cujo trabalho resulta em uma amostra tridimensional de um espécime real, com todos os detalhes necessários para se ter a sensação de que aquele bicho está em seu estado natural, ou seja, vivo.

    De fato, alguns trabalhos são tão bem feitos que parece que estamos diante de um animal vivo, com todas as suas características e expressões originais.

    A taxidermia existe há milhares de anos e é uma das práticas de preparação de corpos, no entanto é exclusiva a animais vertebrados

    Quer saber mais sobre o que é taxidermia e como ela funciona? Então, leia esse artigo até o final e descubra tudo dessa técnica, desde o seu uso mais antigo até o atual!

    O que é taxidermia?

    A taxidermia é uma técnica de conservação do corpo que visa moldar a pele do animal em um formato fiel ao espécime original, a fim de colocá-lo para exposição ou usá-lo para estudos e catalogação de espécies.

    Dessa forma, a taxidermia consiste em reproduzir a estrutura óssea do animal e preenchê-la com materiais sintéticos. 

    Na grande maioria dos casos apenas a pele ou as escamas são conservadas em sua composição natural, mas há ainda situações em que até mesmo esses tecidos externos são sintetizados.

    Dessa maneira, a técnica só é possível em animais vertebrados, ou seja, aqueles que possuem estrutura óssea. 

    Portanto, seria possível taxidermizar um ser humano, não há impedimentos técnicos para a prática. Mas há questões sociais, morais e éticas que fazem com que a taxidermia seja aplicada somente em animais vertebrados não-humanos.

    A conservação do corpo humano é feita através da tanatopraxia, uma técnica mais recente, e o embalsamamento, que vem desde tempos antigos. 

    A mais famosa, porém não utilizada há muitos e muitos séculos, é a mumificação, que também utilizava-se de práticas da taxidermia.

    Leia também: Saiba tudo sobre a decomposição do corpo humano

    Crocodilo taxidermizado e mumificado no Egito Antigo.

    Taxidermia: quando surgiu?

    Muito, mas muito antes do desenvolvimento de tecnologias tais quais temos hoje, ainda na Idade da Pedra, já se praticava a taxidermia. 

    Registra-se que a primeira população a aplicar técnicas de taxidermização foram os Chinchorros, que localizavam-se na região ao Norte do Chile e ao Sul do Peru. 

    Eles utilizavam as formas mais rudimentares de empalhamento. Dessa forma, retiravam os órgãos e os tecidos moles e reconstituíam as formas costurando a pele ao redor do esqueleto e posicionando os cabelos naturais no crânio.

    Por muito tempo o empalhamento foi um sinônimo de taxidermia. De fato, o termo taxidermia ganhou exclusividade na Idade Moderna, quando a palha deixou de ser o material preferido para o preenchimento dos corpos.

    O empalhamento também fazia parte do processo de mumificação do Antigo Egito, que, mesmo não tendo relação alguma com o povo ameríndio, também tinha os seus próprios procedimentos para taxidermizar.

    Retrato de Gabinete de Curiosidades do século XVII, criado em Copenhague pelo físico Ole Worm.

    Como funciona a taxidermia na era moderna?

    Na Europa dos fins da Idade Média a taxidermia era usada para conservar animais para fins decorativos nas casas das elites. 

    De fato, presentear e exibir animais nas salas principais das grandes casas era uma marca de status social. Um pensamento que, de alguma forma, perdura até hoje, basta lembrar de alguns filmes que mostram ursos pendurados nas paredes.

    Nos séculos XV e XVI, época das grandes navegações, a taxidermia ganhou um novo objetivo com a descoberta do Novo Mundo

    Os exploradores que se aventuravam nas Américas capturavam e selecionavam espécimes considerados exóticos para levar à Europa como um troféu da viagem e a fim de mostrar aos demais a diversidade da fauna do ecossistema das florestas além-mar, até então desconhecido e que gerava bastante curiosidade.

    Assim, criaram-se espaços específicos de exibição da fauna e da flora do continente recém-descoberto, dando início à taxidermia para fins de catalogação e registro. 

    Eram chamados de Gabinetes de Curiosidades, que no início objetivavam a apreciação das maravilhas que os colonizadores encontraram durante as expedições.

    Até tentava-se levar os animais com vida para serem conhecidos pelo restante dos europeus. 

    No entanto, eles não sobrevivam às navegações ou não resistiam ao clima frio da Europa. Dessa maneira, a taxidermia era a melhor maneira de garantir a posse desses espécimes.

    Assim, os Gabinetes de Curiosidades são considerados os precursores dos museus de história natural que exibem animais empalhados para divulgar a um público amplo os diferentes bichos encontrados na natureza.

    Como é feita a técnica de taxidermia na atualidade?

    A partir de 1800 a taxidermia ganhou espaço entre os cientistas. O francês Louis Dufresne, que trabalhava para o Museu Nacional de História Natural em Paris, foi um dos grandes responsáveis por popularizar o termo e sistematizar a prática por meio de tecnologias mais desenvolvidas.

    Um pouco depois, no início do século XX, nos Estados Unidos, o taxidermista  Carl Akeley desenvolveu uma técnica que é utilizada até hoje. 

    Ele selecionou os materiais sintéticos adequados para substituir de vez o uso da palha e do barro para a modelagem das formas, tais como algodão, espuma e um material chamado poliuretano, que é a base para produzir muitos dos objetos de plástico sólidos que usamos no dia a dia.

    Além disso, definiu que taxidermizar um animal para exposição conta também com reproduzir seu habitat natural e escolher uma posição para dar a impressão de movimento do animal em sua interação com o ambiente. 

    O taxidermista, assim, não somente conserva um corpo, mas cria uma narrativa a respeito daquele ser que um dia foi vivo.

    Profissional monta o cenário da exposição do Museu de História Natural, Bosque dos Jequitibás, Campinas – SP

    Qual é a técnica da taxidermia?

    Para a reconstituição do corpo é necessário um longo passo a passo. Já que, cada procedimento tem um tempo específico de duração e a prática completa pode durar até um dia, para peixes pequenos, por exemplo, ou meses e até mesmo anos para taxidermizar animais grandes e de estrutura complexa.

    Assim, os taxidermistas precisam ter amplos conhecimentos em biologia, anatomia, química e física, além de conhecer informações sobre a vida desses animais na natureza e o ecossistema em que se incluem, para poder criar posições e expressões fidedignas diante de seu habitat.

    Diante disso, há taxidermistas especializados por determinados grupos de animais ou até mesmo por espécies específicas. 

    Dessa forma, alguns são especialistas em animais marinhos, enquanto outros reconstituem apenas os macacos, por exemplo. 

    Confira abaixo um passo a passo do que é taxidermia e como ela funciona na prática.

    1. A constituição do manequim

    Antes de retirar a pele do animal, o profissional faz uma espécie de manequim, com base em poliuretano e gesso, a fim de fazer uma cópia do corpo. 

    Dessa forma, são realizados moldes do rosto, chamados máscaras mortuárias, e da estrutura corporal, para serem utilizadas como referência no momento da montagem. Essa etapa é chamada de dermoplastia.

    2. A preparação da pele

    Depois de pronto o manequim que servirá como base da reconstituição tridimensional do animal, pode-se retirar a pele, que é destacada do corpo com o máximo cuidado, pois é ela que ficará exposta para exibição.

    A pele é um dos únicos materiais orgânicos que fazem parte do produto final, considerando que a taxidermia é exatamente isso: modelar a pele do animal em torno de um “esqueleto” sintético.

    Assim, o tecido e o pelo precisam ser tratados com produtos químicos para garantir a conservação. Eles passam, então, pelo processo de curtimento, que pode demorar até trinta dias para ser concluído. 

    Os EUA são referência na fabricação de produtos adequados para curtimento e no desenvolvimento de tecnologias para a conservação da pele de animais taxidermizados.

    3. O preenchimento do corpo

    A forma tridimensional é propriamente a modelagem com o polímero poliuretano. Assim, na terceira etapa a pele tratada é colada em torno do manequim com um material produzido especificamente para a adesão do tecido orgânico ao esqueleto sintético.

    4. A reconstituição da face

    Olhos, íris, pupila, boca, dentes, orelhas, língua e caudas são todos constituídos por próteses sintéticas. Enquanto a pele passa pelo processo de curtimento, as formas são sintetizadas da maneira mais próxima possível ao animal real.

    Além disso, cada espécime possui características específicas no formato e na cor de sua constituição externa, isso significa que o taxidermista precisa ter extrema precisão e estudar os detalhes de cada uma das partes do corpo do animal para fazer uma reprodução que dê uma expressão realista ao animal.

    Não muito tempo atrás usava-se as mandíbulas originais do animal. Hoje, no entanto, com o grande avanço das tecnologias para a fabricação de próteses, a substituição por materiais sintéticos é feita em todos os elementos, incluindo cartilagem.

    5. A reconstituição do habitat

    Para realizar a exibição em museus, os animais taxidermizados são posicionados em bases e há também a criação de um espaço que reproduz seu habitat natural, chamado de diorama.

    Dessa maneira, a posição corporal que o taxidermista escolhe para modelar o animal considera seus movimentos naturais e seu modo de vida na natureza, de maneira que a reprodução para os museus conta com a exposição da espécie em seu habitat. 

    Tartaruga de Galápagos, última de sua espécie, conhecida como “Solitário George”, foi taxidermizada e gira o mundo sendo exposta em diversos museus de história natural.

    Para quê fazer a taxidermia?

    Esse procedimento é realizado atualmente para 5 situações principais, tais como:

    • Criação de ambientes e exposição em museus;
    • Catalogação de espécies e estudos científicos em laboratórios;
    • Educação ambiental e ensino escolar dos ecossistemas;
    • Eternizar um pet;
    • Decorar a casa.

    A taxidermia de fato causou um avanço nos estudos em biologia, a partir da conservação de animais é possível que os cientistas tenham contato com espécies dos mais diversos lugares do mundo e tenham acesso a um exemplar daqueles que fazem parte de suas pesquisas.

    Assim, a taxidermia é a grande responsável pelos dados que temos em relação à diversidade da fauna ao redor do globo

    Dessa forma, crianças em idade escolar podem conhecer animais os quais nunca teriam a oportunidade de ver se não fosse a taxidermia, o que oferece uma visão global sobre a diversidade natural do mundo animal. 

    Além disso, amantes de animais e colecionadores fazem um uso mais excêntrico dessa técnica e utilizam a taxidermia para decorar os ambientes da casa ou ainda para homenagear um animal de estimação falecido.

    Afinal, a taxidermia é legal?

    Países como os EUA têm a caça legalizada, ainda que regulada, de maneira que a taxidermia é comum e possui técnicas bastante avançadas, sendo possível caçar um animal unicamente para taxidermizá-lo.

    No Brasil, no entanto, a caça é proibida e não há a possibilidade de capturar animais para fins de estudo e pesquisa, muito menos matá-los para a taxidermização. Assim, os laboratórios de taxidermia são limitados e diretamente controlados pelo IBAMA.

    Essa parceria entre cientistas e o órgão regulador de proteção ambiental é muito importante para que nós humanos pratiquemos a taxidermia e realizemos nossas pesquisas e a produção do conhecimento sem ferir o meio ambiente e seu ecossistema.

    Assim, são encaminhados para pesquisas, sempre por meio do IBAMA, animais encontrados mortos, muito comumente atropelados nas rodovias, ou ainda aqueles que são resgatados longe de seu habitat e não sobrevivem. 

    Eles podem fazer parte de pesquisas em anatomia ou serem levados para os laboratórios de taxidermia, constituindo os museus que tornam acessíveis o conhecimento sobre a incrível diversidade natural brasileira.

    Saiba mais sobre as regulações brasileiras, leia também: Como ser doador de órgãos no Brasil: confira um passo a passo completo

    Retrocesso: o incêndio do Museu Nacional

    Em 2018 houve um incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro que transformou em cinzas cerca de 200 anos de registros científicos sobre o Brasil.

    Muitas espécies catalogadas e espécimes taxidermizados tinham seu lugar garantido no Museu, posicionados em dioramas realistas. 

    O lugar era visitado por curiosos, turistas e escolas, mas também era um espaço para registro do avanço científico no Brasil e consulta de cientistas em busca de dados.

    O acervo histórico do Museu Nacional era único, muitos dos objetos e animais que ali estavam tinham uma catalogação exclusiva. Isso faz com que a perda com o incêndio seja definitiva, irrecuperável. 

    Um grande retrocesso para a construção dos conhecimentos sobre o Brasil, suas características biológicas, históricas e sociais.

    Quer saber mais sobre o trato com o corpo de animais? Leia também: Cremação de Animais: Preço, como funciona e onde fazer.

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