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  • A terceira via pós-morte: cremação por hidrólise

    A ideia da cremação está alcançando muito mais pessoas diante dos problemas ambientais acarretados pelo enterro. Mas sabia que há algo novo em desenvolvimento? Conheça a cremação por hidrólise.

    Aquamação é um processo gentil que usa água ao invés de fogo para retornar o corpo para a mãe natureza.

    Tradução livre da campanha publicitária da empresa Aquamation, cujo slogan é “bio-response solutions” (soluções sustentáveis).

    Muito se discute sobre as vantagens de optar pela cremação ao invés do sepultamento. No entanto, a cremação por meio de incineração não é a última tecnologia para encaminhar nossos restos mortais. Recentemente, a cremação por hidrólise alcalina vem sendo estudada e utilizada em países como Estados Unidos e Holanda.

    O grande argumento em torno da defesa dessa nova tecnologia de destinação de cadáveres é a redução dos impactos ambientais em um mundo com quase 8 bilhões de pessoas que um dia virão a falecer e espaços cada vez mais reduzidos nos cemitérios.

    Isso porque, apesar de mais sustentável que o enterro, a cremação tradicional ainda preocupa quanto à alta demanda de energia elétrica e à emissão de gases na atmosfera.

    No Brasil, a cremação por hidrólise ainda é uma opção longe de se tornar viável, não por falta de recursos para implementá-la, mas por conta da aceitação da população. A grande maioria dos brasileiros é católica e ainda mal aceitou a cremação por incineração.

    Isso significa que propor a cremação por hidrólise em nosso país não pode ser vislumbrado em um futuro próximo. Aliás, o método é um assunto muito controverso mesmo no exterior e causa polêmica entre os cidadãos, o Estado e os especialistas.

    Ainda assim, nunca é demais ficar a par de assuntos atuais e polêmicos de interesse mundial. Por isso, trazemos para nossos leitores informação de qualidade e autêntica sobre a cremação por hidrólise: uma terceira via para o funeral, entre o enterro e a incineração.

    Boa leitura!

    O que é cremação por hidrólise?

    O nome técnico do procedimento é cremação por hidrólise alcalina. Consiste em reduzir o corpo em cinzas sem utilizar o fogo. Na verdade, o cadáver fica imerso em água e em soda cáustica por cerca de 90 minutos e resulta em um líquido pastoso, marrom e denso, parecido com um chorume. 

    Os ossos permanecem irredutíveis, são triturados e transformados em cinzas que são entregues aos familiares do falecido. Essas cinzas são muito mais finas que aquelas que resultam da cremação tradicional e possuem uma quantidade 30% maior se comparadas ao resultado da incineração.

    Leia também: Você sabe quanto custa a cremação no Brasil? Descubra agora.

    Comparação entre cinzas de cremação por incineração e cinzas de cremação por hidrólise. Fonte: Aquamation.

    A sustentabilidade ambiental e o funeral da cremação por hidrólise

    Você deve estar se perguntando: e o líquido produzido pela dissolução química? Bom, é aí que está o problema: fora as cinzas dos ossos, os restos mortais são jogados no esgoto. Poucas pessoas se sentem confortáveis em imaginar o que sobrou de um ente indo para o esgoto.

    Este é o principal questionamento dos religiosos que refutam o procedimento: afirmam que a alternativa sustentável não oferece um destino digno para os falecidos

    Por outro lado, os cientistas afirmam que o procedimento é, na verdade, o mesmo que o processo natural da decomposição de um corpo, já que as transformações químicas são equivalentes

    A diferença é que enquanto naturalmente um cadáver humano demora décadas para se dissolver, a tecnologia permite que se alcance o mesmo resultado proporcionado pela natureza em poucas horas.

    Vejamos em detalhes como surgiu a técnica da cremação por hidrólise alcalina, como ocorre o procedimento e quais são os prós e contras apontados para essa solução funerária nos países que discutem sua aplicação legal.

    Qual a origem da cremação por hidrólise alcalina?

    Em inglês, língua em que está escrita a maior parte do material técnico a respeito da prática, a hidrólise alcalina também recebe os nomes de Resomation, Water Cremation, Aquamation e Biocremation.

    Essa prática de dissolução de cadáveres por meio de processos químicos surgiu em 1888, quando desenvolveu-se uma patente para dissolver partes de animais com hidróxido de potássio para fins de produzir fertilizante e gelatina.

    Quase um século depois, em 1990, pesquisadores Albany Medical College, em Nova York, passaram a usar a técnica para descartar animais utilizados no desenvolvimento de pesquisas em laboratório.

    Foi dessa iniciativa que surgiu o primeiro equipamento tecnológico capaz de manipular um corpo humano. A primeira aplicação confirmada em humanos é de 2006, para fins de pesquisa anatômica desenvolvida pela Mayo Clinic no estado de Minnesota, também nos EUA.

    Atualmente, o procedimento é legal em alguns estados dos EUA e em partes do Canadá. Poucas são as funerárias que têm permissão para realizar o procedimento, muitas vezes é necessário pedir autorização específica para cada aplicação.

    A maior parte das vezes em que a cremação por hidrólise alcalina é empregada é para dar fim a corpos doados à ciência, a exemplo a Universidade da Califórnia, que realiza os estudos e depois dissolve os corpos doados, com autorização do falecido e dos familiares.

    Ainda assim, há um grande movimento para legalizar essa prática, liderado por cientistas dos EUA e da Holanda, que defendem a praticidade e a proteção ao meio ambiente que a cremação por hidrólise proporciona. 

    Como acontece a cremação por hidrólise?

    A cremação por hidrólise consiste em quebrar os tecidos de um corpo por meio de soda cáustica e máquinas desenvolvidas especificamente para isso. O processo rompe as ligações químicas que compõem as proteínas, as gorduras, o DNA, os tecidos, entre outras formações de nosso corpo. 

    De maneira a imitar a decomposição natural, apenas acelerando o processo. Para realizar a cremação por hidrólise, o cadáver é colocado em uma máquina com dimensões de 2m por 1,5m, o suficiente para comportar um corpo humano, forrada em aço.

    O interior é uma câmara construída para receber alta pressão. Assim, o corpo é imerso em uma mistura de cerca de 300 litros de água com uma pequena concentração de composto químico de solução alcalina. 

    Mantenha-se informado ou informada! Leia: Como acontece uma cerimônia de cremação no Brasil? Descubra tudo agora! 

    O resomator, a máquina de última geração que realiza autonomamente a cremação por hidrólise.

    Tecnologias novas para um problema antigo: a morte

    A própria máquina já está programada para pesar o corpo e determinar a quantidade de água e de produto químico ideal para a efetivação do processo de decomposição, evitando assim desperdícios.

    Em seguida, o interior do aparelho recebe uma temperatura de 150º C, criando condições de pressão que induzem a separação das moléculas por meio de reações químicas entre a solução alcalina e as ligações de carbono que compõem o corpo.

    Esse é o procedimento possível através dos equipamentos mais sofisticados, há outras maneiras também, mais baratas e mais demoradas, de realizar a cremação alcalina sem uma câmara de pressurização. No entanto, o resultado é o mesmo: de um lado os ossos, do outro, um líquido marrom de moléculas orgânicas.

    Por último, transforma-se os ossos em pó, através de uma tecnologia parecida com a utilizada para a redução dos ossos no processo de cremação por incineração. A máquina de decomposição já separa o líquido orgânico dos ossos. 

    De maneira que o profissional responsável precisa secar os ossos em uma centrífuga e depois triturá-los em outra máquina, resultando em cinzas claras e finas, que são encaminhadas para os familiares.

    Antes de continuar, confira essa dica de leitura que pode lhe interessar: Cremação é mais cara que sepultamento?

    Prós e contras da cremação por hidrólise

    O debate sobre a viabilidade e a questão moral e ética da cremação aquática é acirrado. 

    Por um lado, religiosos e políticos atacam a credibilidade do procedimento e descartam a possibilidade alegando ser sua aplicação uma conduta imoral.

    Por outro lado, cientistas e profissionais funerários defendem a eficiência do sistema e a necessidade de implementá-lo a fim de reduzir os impactos ambientais causados pelos funerais tradicionais.

    Não é nossa função escolher um lado para nos aliar, mas iremos trabalhar com dados para evidenciar aos nossos leitores em que pé está a investigação e o debate sobre o assunto.

    Para isso, utilizamos um estudo desenvolvido pela TNO, uma organização que realiza pesquisas independentes e traz soluções sustentáveis e tecnológicas para diversos setores que influenciam diretamente as vidas das populações ao redor do mundo.

    O relatório Environmental impact of different funeral technologies (tradução livre: “o impacto ambiental das diferentes tecnologias funerárias”) foi desenvolvido pela organização em 2011, sob a demanda indicada por instituições holandesas que queriam sistematizar e tornar públicos os argumentos cientificamente embasados que até então estavam somente no mundo das ideias.

    O que dizem os contrários

    Apesar do argumento daqueles que são contra a cremação por hidrólise prevalecer em nossa sociedade, fazendo com que a alternativa continue proibida na maior parte dos Estados ao redor do mundo, não há um argumento científico elaborado para refutar o procedimento, apenas religioso.

    Na maioria das vezes – a exemplo, os resultados judiciais negativos para a legalização da cremação por hidrólise na Califórnia – a negação do procedimento se dá por questões morais

    Políticos e religiosos afirmam que o processo vai contra a dignidade humana, na mesma linha argumentativa empregada pelos católicos que refutam a cremação por incineração.

    No entanto, essa afirmação não é suficiente, uma vez que a autorização do procedimento abre a possibilidade de escolha, mas não cria uma obrigatoriedade. 

    Assim, uma vez legalizada a cremação por hidrólise, cada indivíduo tem a opção de declarar sua vontade a respeito do que quer fazer com o próprio corpo após a morte.

    O problema do descarte dos resíduos

    Por outro lado, os laudos de análise aos pedidos de legalização sustentam que não é possível permitir a realização em massa da cremação por hidrólise por falta de dados que projetam os possíveis impactos da liberação dos restos mortais em forma líquida nas redes de esgoto.

    Acontece que há um limite para o nível de pH das substâncias descartadas nos encanamentos e o líquido resultante da cremação por hidrólise alcalina ultrapassa esse limite. 

    Isso significa que o descarte da substância pode causar danos aos encanamentos e comprometer a qualidade da água resultante dos processos de tratamento de esgotos.

    Além disso, afirma-se que o procedimento não é tão sustentável assim, uma vez que gasta mais de 300 litros de água para cada cremação, exigindo alta demanda desse recurso natural para dissolver os corpos em larga escala.

    O que dizem os favoráveis

    O argumento dos cientistas em favor da cremação por hidrólise é amplo e estruturado. Vamos, então, expor os pontos principais, que nos ajudarão a entender mais detalhes sobre o procedimento e compreender porque ele é chamado de biocremação.

    Antes, vale destacar o resultado geral do relatório desenvolvido pela TNO em 2011, que depois de uma ampla pesquisa, elaborou um gráfico resumido sobre os impactos ambientais de cada tipo de funeral, considerando a emissão de poluentes, a demanda de recursos naturais e os produtos e tecnologias utilizadas para cada procedimento. Vejamos abaixo:

    Está pensando em cremar? Confira opções criativas do que fazer com as cinzas: A vida é uma joia, mas as cinzas de cremação podem ser… um diamante! Saiba como transformá-las.

    1. Relatório da organização científica TNO 

    O gráfico faz uma relação entre os impactos totais de cada técnica, expressando a demanda de recursos em euros para que os resultados tornem-se mais palpáveis e evidentes para o público leigo.

    Gráfico sobre os impactos ambientais das técnicas funerárias.

    Note que são 4 categorias: duas já amplamente difundidas, o sepultamento e a cremação por incineração (burial e cremation); e duas novas técnicas ainda não implementadas, a cremação por hidrólise (resomation) e a cryomation.

    Saiba mais sobre o sepultamento na atualidade: Tudo o que você precisa saber sobre sepultamento em tempos de Covid-19.

    A cryomation é uma técnica nova bem menos empregada que a cremação por hidrólise, assim, o nome do procedimento ainda não foi traduzido para o português. É uma alternativa que está em fase de pesquisa laboratorial aplicada em porcos, de maneira que ainda não foram feitos testes em humanos.

    Apenas para contextualizar, condiz com dissecar um cadáver por meio de congelamento e subsequente fragmentação das moléculas.

    Assim, o gráfico indica que o enterro é de longe o menos sustentável, causando um impacto que desperdiça 85 euros em recursos naturais por sepultamento. Em seguida, a cremação por hidrólise, que demanda um gasto de 30 euros

    A inovadora cryomation reduz esses gastos para 10 euros, enquanto a cremação por hidrólise exige 0 euros para sua efetivação, o que demonstra o baixo desperdício de recursos naturais, segundo essa escala de análise.

    2. Utilização de recursos hídricos na cremação por hidrólise

    Embora um dos argumentos dos desfavoráveis seja o alto consumo de água para a realização da biocremação, os favoráveis afirmam que os números são irrisórios em larga escala.

    Tomando a Califórnia como exemplo, se em um ano todos os californianos fossem submetidos à cremação por hidrólise, haveria um gasto de 64 milhões de galões de água no ano, enquanto as estações de tratamento de água gastam em torno de 500 milhões de galões por dia. Esses dados podem ser verificados no portal Ik Science.

    Assim, a demanda de recursos hídricos não é absurda diante da quantidade que temos disponível.

    3. Impactos nos encanamentos de esgoto

    O procedimento prevê o descarte do líquido orgânico final nas redes de esgoto, no entanto a substância pode ultrapassar o nível de pH previsto pelas leis locais de saneamento, o que pode causar a corrosão do metal e prejudicar o sistema de tratamento de água. 

    No entanto, os especialistas no assunto afirmam que é possível adequar o nível de pH adicionando uma quantidade de ácido na substância antes de descartar os resíduos.

    Além disso, não necessariamente os restos mortais precisam ir para a rede de esgoto, pode-se encaminhar os dejetos para uma empresa especializada em descarte de resíduos.

    Diante disso, os defensores do procedimento afirmam que os impactos nas redes de esgoto não são motivo suficiente para impedir a realização da cremação por hidrólise.

    4. Emissão de gases de efeito estufa

    Outro argumento de peso para defender a legalização da cremação por hidrólise é a baixa emissão de gases nocivos ao meio ambiente. O procedimento emite 80% a menos de gases de efeito estufa que a cremação por incineração, segundo o relatório da TNO.

    Isso porque a queima da cremação tradicional demanda uso de gás natural e solta na natureza em torno de 320 kg de dióxido de carbono (CO2) e outras substâncias tóxicas como o mercúrio.

    A cremação por hidrólise, por outro lado, usa energia apenas para aquecer e resfriar a solução alcalina, em um processo que diminui significativamente a emissão de gases de efeito estufa.

    5. Uso de outros recursos naturais

    As pesquisas indicam que o enterro é o tipo de funeral que mais desperdiça recursos naturais, uma vez que envolve alta quantidade de madeira, pedra, aço, cimento, terra, algodão, entre outros recursos. 

    Esses materiais dificilmente são reutilizados, precisam de manutenção – o que significa demanda de mais recursos – e ainda são usados por pouco tempo, já que o corpo é exumado dentro de poucos anos após o sepultamento.

    A cremação por incineração não é totalmente sustentável tampouco. O procedimento exige alta demanda de energia elétrica e gás natural, além de ser necessário investir em um complexo sistema de filtragem de substâncias gasosas para que a fumaça liberada na atmosfera não seja prejudicial ao meio ambiente.

    Tal tecnologia não está presente em todos os crematórios e demanda ainda mais recursos para o sistema funcionar.

    Além disso, ambos os procedimentos utilizam muitas substâncias tóxicas, muito algodão e tecidos sintéticos, uma vez que é imprescindível realizar o embalsamamento ou a tanatopraxia para enterrar ou cremar.

    A cremação por hidrólise dispensa tudo isso, usando apenas água, máquinas feitas em aço e metais, mas que uma vez produzidas não demandam novas fabricações, e substâncias alcalinas semelhantes às que compõem os produtos de limpeza. Assim, o uso de recursos naturais é muito menor.

    6. Reuso de recursos

    A cremação por hidrólise permite que os materiais sejam reutilizados. Segundo o estudo da TNO o algodão, que já é aplicado em baixa quantidade, pode ser reutilizado 50 vezes, o maquinário tem longa durabilidade e os metais como aço, ferro, titânio e cobalto são aplicados com estratégias de reuso.

    7. Diminuição de riscos

    Além do procedimento ser mais simples, diversos riscos são anulados, tal como o risco de explosão dos fornos crematórios, que são altamente perigosos diante de implantes e aparelhos terapêuticos que podem estar presentes nos corpos.

    Além disso, não impacta em riscos de contaminação do solo, que é um grande problema do funeral feito por meio de sepultamento, além de não apresentar riscos de intoxicação humana, embora os estudos a respeito do descarte dos restos mortais líquidos com alto nível de pH ainda sejam pouco conclusivos.

    Qual a real viabilidade da cremação por hidrólise?

    Muitos cientistas e profissionais funerários estão atrás de viabilizar a cremação por hidrólise mundialmente, usando o discurso de que as novas tecnologias trarão benefícios às gerações futuras

    Uma vez que o processo é uma alternativa sustentável para o funeral de uma população mundial com mais de 7 bilhões de habitantes – e crescendo – que, um dia ou outro, precisarão ter um encaminhamento de seus restos mortais.

    Apesar disso, a resistência em legalizar a cremação por hidrólise tem lá seus motivos também palpáveis. 

    No entanto, uma vez que todas as opções possuem seus prós e contras, a melhor solução seria permitir a implementação dessa tecnologia, já que a religiosidade por trás do discurso negacionista não pode fundamentar as escolhas de cidadãos que seguem outras crenças.

    Assim, concluímos que o melhor dos mundos permitiria que cada um tivesse a chance de escolher o que fazer com o próprio corpo após a morte, independentemente de argumentos religiosos ou ativismo ambiental.

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    Aprofunde-se no debate, leia também: Todas as religiões aceitam a cremação?

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