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  • A morte do outro lado do globo: conheça o funeral no Japão

    A cultura japonesa nos encanta exatamente por ser tão distinta da nossa. Mas você já ouviu falar sobre as tradições e rituais do funeral no Japão? Confira agora tudo sobre elas!

    O Japão fica localizado no extremo oriente. O país está no Oceano Pacífico e é composto por mais de 6 mil ilhas. Essa característica geográfica e o seu território montanhoso, somados às suas tradições religiosas, fazem com que o funeral no Japão tenha diversas peculiaridades se comparado com as práticas no ocidente cristão.

    Muito diferente do que acontece no Brasil, cerca de 98% dos japoneses são adeptos da cremação. O motivo desse fato é fundamental para compreender como aquela população enxerga e lida com a morte.

    Essa ideologia, que tem um fundo histórico, religioso e geográfico, é o que molda o funeral no Japão, formado por cultos totalmente voltados para homenagear o falecido e garantir uma saída segura do mundo material.

    Vamos nos esgueirar, então, para dentro da cultura japonesa e explorar curiosidades relacionadas à visão que eles têm sobre a morte a fim de entender como acontece e em que está baseado o funeral no Japão.

    Afinal de contas, falar sobre a morte não precisa ser sempre deprimente. Esse assunto também pode oferecer conhecimento histórico e cultural acerca da pluralidade da humanidade.

    Boa leitura!

    Por que a cremação é predominante na cultura japonesa?

    Existe um fator determinante para que a cremação seja a queridinha no trato do corpo pós-morte no Japão: a geografia.

    O Japão é um país montanhoso, com alta quantidade de áreas alagadas, formado por ilhas e, por isso, bastante segmentado. 

    Assim, simplesmente não há espaço territorial suficiente para construir e expandir cemitérios com covas como os que encontramos no Brasil. 

    Considerando o tempo que um corpo demora para se decompor e a capacidade espacial para enterrar todos que vêm a óbito, o sepultamento é absolutamente inviável no Japão. 

    Assim, ainda que os japoneses preferissem pelo enterro como o conhecemos, ele não seria possível.

    Além disso, desde 1867, a cremação tornou-se obrigatória no Japão para casos de morte por doenças infecciosas, já preocupados com a contenção de transmissão de vírus letais.

    Como as religiões influenciam nos funerais japoneses?

    É um engano, no entanto, pensar que 98% dos japoneses são cremados contra a sua vontade, por falta de espaço. 

    A verdade é que, por motivos ideológicos e religiosos, os japoneses consideram que deixar o corpo seguir sua decomposição natural é uma desonra

    Apenas 2% da população japonesa é cristã, o restante está dividido entre o xintoísmo e o budismo. Isso significa que, para conhecer o funeral no Japão, você pode pegar tudo o que conhece em relação à morte e colocar de lado. 

    Vamos entender nos tópicos abaixo um pouco mais sobre as religiões do Japão e como elas influenciam nos funerais.

    Quer mais curiosidades? Confira o artigo: Catafalco: você sabe o que é? Quais os mais famosos do mundo?

    O xintoísmo

    Para os xintoístas, a natureza é a própria divindade, de maneira que o poder espiritual não tem uma forma humana, mas se manifesta nos elementos da natureza, que são sagrados em seu equilíbrio e harmonia.

    Essa é uma religião politeísta e que preza pela pureza espiritual. Acredita-se que a morte não é o fim e que a energia de cada pessoa apenas muda de lugar, mantendo a sua consciência.

    Nessa perspectiva, o culto ao corpo, à matéria e à imagem – alicerces do cristianosmo – não tem lugar. 

    O importante é o espírito e a sua trajetória pós-vida. Assim, a cremação é fundamental para a efetivação desse processo de desprendimento do corpo e mudança de plano.

    O budismo

    O budismo foi incorporado no Japão a partir de influência chinesa e coreana. A crença diz que é uma religião criada por Buda e baseia-se na ideia do carma, ou seja, tudo que fazemos em vida é cultivado e tem efeitos que marcam cada espírito. 

    Assim, o carma é carregado para o além-vida e pode surtir efeitos em um renascimento posterior.

    O foco, mais uma vez, está no espiritual e o ato de cremar é primordial. Houve um tempo em que quando alguém era condenado à morte parte de sua punição condizia a ser impedido de passar pelo processo de cremação, de maneira que o ritual era reservado a quem buscasse elevação espiritual.

    Atualmente, ambas as religiões são oficiais no Japão e seus ritos misturam-se entre as famílias que podem praticar tanto o xintoísmo quanto o budismo simultaneamente

    Leia também: Você sabe o que é reencarnação? Entenda o seu significado! 

    Como acontece o funeral no Japão?

    Dessa maneira, não é difícil perceber que todo funeral tem a cremação como etapa final. Mas o que vem antes disso?

    Você pode imaginar que etapas como velório, cortejo e orações não façam parte do funeral japonês. 

    Em verdade, o funeral japonês passa por quatro rituais principais, realizados pela família, cujo responsável é, tradicionalmente, o filho homem mais velho da pessoa falecida. Vamos conhecê-los abaixo!

    1. Preparação do corpo

    Cada vez mais o funeral no Japão tem-se tornado impessoal, ou seja, a família fica distante dos preparativos do corpo, sendo os rituais mais voltados para os cuidados do espírito.

    Assim, o corpo é levado em hospitais e a preparação consiste em, além da higienização, obstruir os orifícios – como ouvidos e narinas – com algodão, para então serem vestidos com terno ou quimono, a depender do sexo do falecido.

    A necromaquiagem não é comum, usada apenas em casos muito específicos, tampouco faz-se o embalsamamento, de maneira que envolver o corpo em gelo seco é a principal técnica de conservação.

    O falecido é preparado para passar uma última noite em seu lar, momento em que os familiares desfrutam da presença do ente antes da despedida final.

    Para conhecer como acontece a preparação de um corpo no Brasil acesse o artigo: Você sabe como é feita a preparação do corpo pós-morte?

    2. Realização da cerimônia

    No dia seguinte, é realizada uma cerimônia de despedida, como um rito de passagem, que poderíamos dizer que equivale a um velório. Há enfeites, convidados, comidas e celebrações ao falecido.

    Todos devem estar vestidos de preto para a ocasião, representando o luto. O corpo é colocado no caixão diante dos olhos dos convidados que, em seguida, colocam junto ao falecido alguns pertences de que ele gostava, suas comidas preferidas e moedas para simbolizar prosperidade.

    Assim, dá-se lugar ao momento de orações, em que cada um se dirige até o altar preparado para o falecido, acende um incenso, toca um sino ali disposto e presta sua condolência.

    As orações são guiadas por um sacerdote budista, que recita um sutra, em seguida os familiares levantam-se de suas cadeiras e fazem suas orações e, por último, os amigos do falecido fazem o mesmo.

    O evento é longo e nada barato. É muito comum que amigos e familiares contribuam financeiramente com as despesas do funeral no Japão

    O valor que cada um oferece é representativo do grau de proximidade que tinha com a pessoa morta e é entregue ao responsável pelo funeral dentro de um envelope.

    Cada doador registra seu nome e o valor doado em um livro que é entregue à família depois de encerradas as cerimônias.

    3.Ritual kotsuage.

    3. Processo de cremação

    Depois das cerimônias o falecido fica em seu altar por toda uma noite, sendo sempre acompanhado por amigos e familiares, não podendo nunca estar sozinho.

    Apenas depois dessa vigília noturna o corpo é transportado para o local de cremação, um ritual do qual todos os familiares participam.

    O caixão é depositado na mesa do crematório, com um sistema de deslizamento até chegar no forno. Os familiares empurram o caixão por essa mesa e depositam, juntos, o falecido em seu destino final.

    Todos aguardam o tempo necessário para que a cremação se complete. Depois, as cinzas e os ossos são colocados em um recipiente e os familiares presentes precisam separar, com uma espécie de hashi, os ossos, a fim de colocá-los na urna. 

    Cria-se uma fila, em que as pessoas se distribuem entre o recipiente primeiro e a urna final, assim, cada pedaço de osso é pinçado e passado de pessoa para pessoa até chegar no último da fila que depositará o fragmento na urna. 

    Esse ritual chama-se kotsuage e há um significado por trás disso, inclusive em relação à ordem em que os ossos são depositados, representando sua importância diante da função que cumpre no corpo humano.

    Feito isso, todos os restos mortais – ossos e cinzas – podem ser distribuídos em uma ou mais urnas e guardados em um altar na casa da família ou ainda enterradas em um jazigo.

    Lápides em cemitério japonês

    Saiba mais sobre cremação em: Você sabe quanto custa a cremação no Brasil? 

    4. O enterro das cinzas

    Normalmente, as famílias japonesas possuem jazigos em cemitérios para suas urnas. Os restos mortais dos corpos cremados são guardados neste espaço sagrado, como um sinal da importância dos antepassados, algo que é marcante na cultura japonesa.

    Há lápides em que os nomes dos familiares a quem aquele jazigo pertence já estão gravados, antes mesmo da pessoa morrer. 

    As inscrições dos nomes daqueles que ainda estão vivos ficam tingidos de vermelho e, no momento em que falecem e tem sua urna ali enterrada, a tinta é retirada.

    Por outras vezes, o jazigo é apenas um túmulo coberto por concreto em que está gravado o sobrenome da família.

    Conheça também uma homenagem póstuma originária da Roma Antiga: Você sabe o que é um columbário? Entenda o que significa agora! 

    Lápide reservada a familiar ainda vivo.

    Cemitérios high tech: uma nova tendência no funeral no Japão

    Ainda que haja a possibilidade de guardar a urna com as cinzas do falecido em um altar dentro de casa, os japoneses adoram um bom cemitério, exatamente para manter a relação entre as gerações da família, uma vez que a ideia de antepassados é extremamente importante na religiosidade dos japoneses.

    Acontece que a falta de espaço tem impedido que até mesmo os jazigos para as cinzas não possam ser expandidos nos cemitérios, o que se configurou em um grande problema.

    Mas encontrar soluções práticas é uma habilidade dos japoneses e recentemente eles são conhecidos pelos sofisticados cemitérios tecnológicos.

    O mais famoso é o prédio Shinjuku Rurikoin Byakurengedo, em que há diversas salas com inúmeras gavetas. 

    A tecnologia desenvolvida pela Toyota faz um registro digital das gavetas e das identidades dos falecidos, cada gaveta pode ser acessada por meio de ID-cards.

    Os espaços são reservados para as famílias, dispostas verticalmente tornaram-se verdadeiros altares para que possam ser visitados e realizadas homenagens póstumas

    Como funcionam as homenagens póstumas no Japão?

    Se no Brasil temos a missa de sétimo dia como a homenagem póstuma mais comum, os japoneses que seguem o budismo realizam cerimônias também no sétimo dia, mas não acaba por aí, pois a repetem no vigésimo primeiro dia, no quadragésimo nono e no centésimo.

    Depois disso, passado um ano de falecimento, as homenagens são realizadas no dia dos finados, no mês de agosto.

    Conheça mais curiosidades sobre o mundo da morte, lendo o artigo: Túmulos de famosos: confira os 15 mais visitados do Brasil

    Gavetas tecnológicas para armazenamento das cinzas no Japão.

    Ficamos aqui com a nossa leve e curiosa excursão pelo funeral no Japão. A partir de estudos sobre a morte podemos fazer associações sobre os modos de vida e as crenças nas diferentes culturas

    Além de que através do conhecimento podemos desenvolver empatia e driblar a intolerância religiosa.

    Esperamos que tenham gostado desse conteúdo. Compartilhem com seus amigos e familiares nas redes sociais e, se tiverem interesse, busquem mais informações sobre a ímpar relação dos budistas com a vida e com a morte.

    Se você gosta do que a História tem a dizer sobre a morte, você vai se interessar por: O que é o processo de mumificação, como funciona, ainda é feito hoje?

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